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IA e eleições: especialista alerta para influência na percepção coletiva

Especialista no uso da tecnologia em campanhas eleitorais, o sociólogo e estrategista político...

Especialista no uso da tecnologia em campanhas eleitorais, o sociólogo e estrategista político Marcelo Senise alerta para o risco de a Inteligência Artificial induzir o eleitor a ter uma determinada percepção da realidade. Os agentes responsáveis por esse fenômeno seriam os neurobots, perfis criados por meio de IA que participam do debate político nas redes sociais. “Se antes perguntávamos “o que é verdadeiro?”, agora precisamos perguntar também “com quem estamos conversando?”, argumenta Senise. Nesta entrevista ao Correio, o presidente do Instituto Brasileiro para a Regulamentação da Inteligência Artificial (Iria) comenta algumas observações reunidas em relatório produzido pela instituição. Leia os principais trechos.

As redes sociais fragmentaram o debate público e, para muitos, enfraqueceram a formação de uma opinião pública bem informada. Há um risco para a democracia?

As redes sociais transformaram profundamente a forma como consumimos informação. Antes, a sociedade compartilhava referências comuns. Hoje, cada cidadão recebe uma realidade parcialmente personalizada por algoritmos que priorizam aquilo que gera maior engajamento, emoção e permanência na plataforma. Esse processo fragmenta o debate público, fortalece bolhas de confirmação e reduz o contato com visões divergentes. A consequência é que deixamos de discutir os mesmos fatos para disputar versões completamente diferentes da realidade. A Inteligência Artificial (IA) amplia esse fenômeno porque permite produzir e distribuir conteúdos em escala, adaptar mensagens para diferentes públicos e, principalmente, simular sinais sociais capazes de influenciar a percepção coletiva. O maior risco para a democracia não é apenas a circulação de informações falsas. É quando a própria percepção da realidade passa a ser artificialmente influenciada.

A IA já é utilizada para produzir conteúdos políticos em larga escala. Como diferenciar usos legítimos da tecnologia de práticas que configuram manipulação da opinião pública ou interferência indevida no processo eleitoral?

A IA é uma ferramenta extraordinária e pode fortalecer a democracia quando utilizada com transparência e responsabilidade. Ela pode ampliar o acesso à informação, facilitar a comunicação entre candidatos e eleitores e tornar campanhas mais eficientes. O problema começa quando a tecnologia deixa de apoiar a comunicação e passa a fabricar uma falsa percepção da realidade. Isso acontece quando agentes artificiais simulam pessoas reais, criam consensos inexistentes, manipulam tendências ou ocultam deliberadamente sua verdadeira identidade. A diferença é bastante clara: a persuasão apresenta argumentos e assume sua autoria; a manipulação esconde quem fala, simula apoio social e reduz a capacidade do cidadão de perceber como está sendo influenciado.

O conceito de “integridade cognitiva” ainda é pouco conhecido pelo público. O que ele significa na prática e por que passou a ser considerado um elemento central para garantir eleições livres e confiáveis?

Integridade cognitiva é a preservação das condições para que cada cidadão possa formar sua opinião de maneira livre, consciente e autônoma. Não significa eliminar o debate político nem impedir a disputa de ideias. Democracia pressupõe divergência. O que precisa ser protegido é a autenticidade do ambiente onde essa disputa acontece. Se uma pessoa acredita estar observando manifestações espontâneas da sociedade, mas parte significativa desses sinais foi produzida artificialmente, sua percepção da realidade pode ser distorcida antes mesmo de ela tomar qualquer decisão. A urna protege o voto. A integridade cognitiva protege o processo pelo qual esse voto é construído.

As pesquisas do IRIA sugerem a necessidade de uma governança da inteligência artificial. Quais medidas deveriam ser priorizadas pelo poder público, pelas plataformas digitais e pela sociedade para reduzir os riscos de desinformação sem comprometer a liberdade de expressão?

A liberdade de expressão deve permanecer como um princípio inegociável. O desafio não é controlar opiniões, mas impedir fraudes tecnológicas capazes de comprometer a confiança no ambiente democrático. Precisamos de maior transparência no uso da Inteligência Artificial; identificação de conteúdos sintéticos; responsabilização de operações clandestinas; fortalecimento da pesquisa científica; auditorias independentes; e maior cooperação entre plataformas, academia, imprensa e Justiça Eleitoral. Regular não significa censurar; significa criar regras para que a inovação tecnológica continue avançando sem comprometer direitos fundamentais. O objetivo não é controlar o que as pessoas pensam, mas impedir que máquinas se façam passar por pessoas para influenciar silenciosamente aquilo que a sociedade acredita estar pensando.

O Relatório Nacional sobre a Integridade Cognitiva das Eleições Brasileiras, produzido pelo IBRIA, encontrou evidências de neurobots. Isso significa que eles já estão atuando nas eleições brasileiras?

Sim. Essa é, provavelmente, a principal conclusão do estudo. Nossa pesquisa identificou evidências consistentes de que neurobots já estão presentes em grandes ecossistemas políticos brasileiros. Isso significa que a IA deixou de ser apenas uma ferramenta de produção de conteúdo e passou a integrar, de forma ativa, os ambientes onde milhões de brasileiros acompanham e debatem política. É importante esclarecer que o estudo não identifica quem controla esses agentes, quem os financia, quais interesses representam ou se atuam a serviço de campanhas, grupos privados ou qualquer outra organização. Essa não era a finalidade da pesquisa. O que demonstramos é que essas estruturas já existem e que possuem potencial para influenciar a percepção coletiva ao simular comportamento humano, participar de discussões públicas, reforçar narrativas e criar sinais sociais capazes de alterar a forma como as pessoas interpretam a realidade.

Por que apontar isso é relevante?

Estamos diante de uma mudança de paradigma. Não discutimos mais apenas robôs automatizados ou fake news. Discutimos agentes artificiais capazes de participar da conversa pública de maneira cada vez mais convincente. Se essa tecnologia continuar evoluindo no ritmo atual, ela tem potencial para desequilibrar profundamente o debate democrático. O aspecto mais preocupante é que ainda sabemos muito pouco sobre quem opera essas estruturas e quais interesses efetivamente representam.

O Brasil está preparado para enfrentar esse cenário?

O Brasil avançou muito no enfrentamento às fake news e aos conteúdos sintéticos, mas a IA evolui em uma velocidade muito superior à capacidade de adaptação das instituições. As eleições de 2026 provavelmente serão as primeiras em que veremos agentes artificiais participando de forma muito mais intensa do ambiente digital. Isso exigirá novos mecanismos de monitoramento, maior transparência das plataformas e uma cooperação permanente entre pesquisadores, imprensa, sociedade civil e Justiça Eleitoral. Não se trata de impedir o avanço tecnológico. Trata-se de garantir que ele não comprometa a autonomia do eleitor. A pergunta já não é mais se a IA participará das eleições de 2026. A pergunta é se estaremos preparados para conviver com ela sem comprometer a confiança no processo democrático.

Qual foi a principal conclusão da pesquisa?

Talvez a maior descoberta tenha sido perceber que estamos olhando para o problema errado. Durante anos concentramos nossa atenção nas fake news, nos robôs tradicionais e nos conteúdos sintéticos. Tudo isso continua sendo importante, mas existe um fenômeno ainda mais sofisticado: agentes artificiais capazes de participar das conversas públicas como se fossem pessoas reais. Quando isso acontece, a questão deixa de ser apenas identificar se uma informação é verdadeira ou falsa. Passa a ser compreender se o ambiente onde essa informação circula continua sendo predominantemente humano. Se antes perguntávamos “o que é verdadeiro?”, agora precisamos perguntar também “com quem estamos conversando?”. Talvez essa seja a grande questão democrática da era da Inteligência Artificial.

Fonte Correio Braziliense
Foto: Maurenilson

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