sábado, 20 de julho de 2024
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Disney usa personagens com deficiência como vilões ou para piadas em animações

Pesquisa diz que estúdio faz representações negativas em ‘Toy Story’ e ‘Procurando Dory’, apesar de atenção à diversidade

Animações da Disney ainda recorrem a estereótipos para retratar pessoas com deficiência. Uma pesquisa americana mostra que a maioria dos desenhos produzidos no período de 2008 a 2018 representou o grupo em contextos envolvendo pena, maldade e piada.

As sociólogas Jeanne Holcomb, da Universidade de Dayton, em Ohio, e Kenzie Latham-Mintus, da Universidade de Indiana, ambas nos Estados Unidos, analisaram 20 filmes da empresa. A pesquisa foi publicada em agosto do ano passado no periódico internacional Disability Studies Quarterly, pioneiro em pesquisas multidisciplinares sobre deficiência.

A partir de traços visíveis, como uso de cadeiras de rodas, ou reconhecíveis nos diálogos, como dificuldade em guardar memórias recentes, as pesquisadoras identificaram personagens com deficiência nas animações. Depois, classificaram suas representações em cinco categorias: contexto de maldade ou velhice, pena, superação, piada e positivo.

Todos os 20 filmes apresentaram algum personagem com deficiência. A representação mais recorrente, com 12 aparições, utilizava sinais de alguma deficiência como indicador de maldade ou velhice. Em “Toy Story 3”, que estreou em 2010, o vilão Lotso passa a usar uma bengala após se tornar malvado.

Outro exemplo aparece no filme “Enrolados”, de 2010. Membro de um bando de ladrões, um personagem secundário usa gancho de metal no lugar da mão para denotar vilania.

As pesquisadoras encontraram 11 exemplos de personagens com deficiência retratados em situações ligadas a sentimentos de pena e superação. Na animação “Procurando Dory”, lançada em 2016, quando a protagonista repete falas sem perceber -ela tem perda de memória de curto prazo-, outros peixes lamentam entre si a “horrível” condição de Dory.

Outras nove animações apresentam diversidade intelectual e física como se fossem cômicas. Geraldo, um dos leões-marinhos de “Procurando Dory”, tem aparência descuidada, com olhos arregalados sem foco e sobrancelhas grossas. Ele anda e ri de um jeito diferente dos outros personagens, que o tratam com desdém.

“É fácil dizer que ‘foi só uma piada’, quando se esquece dos padrões mais amplos de desigualdade”, diz Holcomb ao se referir à discriminação de pessoas com deficiência, em entrevista por email.

A pesquisadora afirma que estereótipos negativos usados nos filmes se entranharam tanto na cultura que é difícil percebê-los. Por isso, estudos para entender como diferentes minorias são representadas em animações importam, em especial por terem crianças como público.

“A mídia infantil tem o potencial de moldar positivamente as percepções e atitudes das crianças sobre pessoas com deficiência”, afirma a socióloga americana.

Apenas três personagens das 20 animações foram representadas de forma positiva, como o rei Fergus, em “Valente”, lançado em 2012. Ele é retratado como poderoso e independente, e o fato de não ter uma perna é apenas uma característica.

Ana Clara Moniz, de 22 anos, influencer com atrofia muscular espinhal, se incomoda quando deficiências são usadas para retratar vilões. “A falta de braços e pernas é vista como anomalia ou atributo que deixa pessoas feias, o que justificaria torná-las vilãs. Por isso, é muito fácil que crianças associem deficiência a algo negativo.”

Histórias de superação também são problemáticas, afirma Moniz, e respingam no cotidiano. Ela conta que já recebeu parabéns apenas por tomar cerveja em um bar -o que não acontece com alguém sem deficiência.

“Representações sem estereótipos mostram que não é errado que eu exista”, diz a influencer. “Se eu tivesse visto animações da Disney com algum cadeirante quando era criança, as coisas poderiam ter sido menos difíceis para mim. Não resolveria todos os problemas, mas ajudaria no processo de autoaceitação.”

Para Sônia Caldas Pessoa, coordenadora do grupo Afetos: Pesquisa em Comunicação, Acessibilidade e Vulnerabilidades, da Universidade Federal de Minas Gerais, trabalhar com pessoas com deficiência na concepção de animações deve fazer parte da governança dos estúdios.

Só assim, diz Pessoa, são possíveis propostas efetivas que respeitem peculiaridades humanas, sem supervalorizar ou subvalorizar a deficiência. “Não dá para falar de inclusão apenas para garantir um selo de diversidade. É isso que mostra a análise das duas sociólogas.”

Ideias pejorativas sobre deficiência espelham o preconceito estrutural da sociedade, afirma a pesquisadora brasileira. “O capacitismo e seu imaginário perduram por anos e até hoje ele precisa ser reconfigurado e contestado”, diz, em menção ao termo utilizado para descrever comportamentos que reforçam estigmas sobre pessoas com deficiência.

Os avanços em diversidade da Disney são vistos em produções como o live-action “A Pequena Sereia”, cujo papel da protagonista foi desempenhado pela atriz negra Halle Bailey, previsto para ser lançado neste ano.

O estúdio também estreou em 2021 a animação “Luca”, que representa com naturalidade Massimo Marcovaldo, um personagem secundário que não tem um braço. O filme ficou fora do período de análise de Holcomb e Latham-Mintus.

O desenho retrata visualmente a deficiência do personagem -uma das mangas da camiseta dobrada e vazia- e contextualiza a característica em diálogos. Massimo brinca sobre um monstro marinho ter comido seu braço, mas depois explica que nasceu assim.

Um dos responsáveis por desenvolver o personagem foi James LeBrecht, cineasta com deficiência que dirigiu o documentário indicado ao Oscar de 2020 “Crip Camp: Revolução pela Inclusão”.

Questionada sobre quais atitudes vêm tomando para retratar pessoas com deficiência em animações de forma equilibrada, a Disney afirmou que não iria se manifestar.

Animações de outros estúdios também derrapam nesse tipo de representação. Usando os critérios das sociólogas americanas (estereótipos de pena, piada, maldade e superação), a reportagem analisou as animações lançadas do início de 2021 até outubro de 2022 de dois estúdios, Dreamworks e da Illumination.

Das cinco animações analisadas, quatro tinham personagens com algum tipo de deficiência -a exceção foi “Spirit: O Indomável”, da Dreamworks.

O único momento em que pessoas com deficiência aparecem em “Os Caras Malvados”, também da Dreamworks, é na frente de um hospital, em contexto de pena. Na cena, figurantes com cadeiras de rodas esperam uma doação em dinheiro.

Já em “O Poderoso Chefinho 2: Negócios da Família”, do mesmo estúdio, o mago, que é um brinquedo falante, perdeu um dos braços. Depois do episódio, ele cai da cama e diz, de forma cômica, “ai, meu braço bom”. No final da animação, o mago recebe um novo membro superior, agora mais musculoso, dando a entender que superou a deficiência.

A Senhorita Crawly, de “Sing 2”, lançado pela Illumination, é uma iguana idosa sem um olho, que teve a deficiência usada como piada. Ao perder o olho postiço em uma cena, a personagem coloca uma maçã no vazio do globo ocular.

No lançamento mais recente do estúdio, “Minions 2: A Origem de Gru”, há tanto representação de deficiência como indicador de maldade quanto motivo de piada. Jean-Garra, um dos vilões da trama, tem uma garra mecânica no lugar do braço, característica acionada para reforçar a vilania do personagem.

A reportagem procurou, no Brasil, a assessoria de imprensa da Universal Studios, dona da Illumination e Dreamworks, que afirmou responder apenas pela exibição em cinema, não pelo conteúdo das produções. A assessoria também afirmou não mediar o contato com a equipe americana. Os representantes do estúdio nos Estados Unidos não responderam ao pedido de entrevista.

Por FolhaPress via Jornal de Brasília

Foto: Disney Pixar/Divulgação / Reprodução Jornal de Brasília

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