Outros posts

A história da primeira biblioteca pública de Brasília

Na manhã de 10 de junho de 1961, um caminhão da Divisão de Obras...

Na manhã de 10 de junho de 1961, um caminhão da Divisão de Obras da Novacap — então sob a presidência de Randal Rocha Pombo, bacharel em direito — parou diante de duas casas geminadas nas quadras 707/708, na W3 Sul, onde funcionava a Biblioteca Visconde de Porto Seguro. Três servidores saltaram do caminhão, entraram na biblioteca e deram início a um pavoroso desmonte. Jogaram as estantes, as cadeiras e as mesas no caminhão. Os 6 mil livros foram largados ao relento, nas áreas verdes da quadra.

Não houve comunicado prévio, uma justificativa, um ofício ou qualquer formalidade. Apenas a brusca e incivilizada ação. Queriam as casas para algum membro do novo governo de Jânio Quadros. Morria, ali, a primeira biblioteca pública de Brasília. E, com ela, o início do fim do sonho de se fazer da capital da República um centro nacional e inspirador de arte, de educação e de cultura, como desejava a mente luminosa de Anísio Teixeira, tão admirado por JK.

A bibliotecária Lola Barrenechea era esposa do artista plástico Félix Barrenechea. O casal peruano havia sido convidado por Israel Pinheiro para construir o que seria o primeiro Centro Cultural da nova capital ainda em construção. Assim, eles receberam do presidente da Novacap, em 1958, duas casas na 707/708, na W3 Sul, onde seria criada a primeira escola-ateliê de arte e a primeira biblioteca pública da cidade, a Biblioteca Visconde de Porto Seguro — uma homenagem a Adolpho Varnhagen.

Em pouco tempo, Félix reuniu, como alunos, algumas dezenas de crianças, entre elas Cildo Meirelles, artista hoje reconhecido no Brasil e no mundo. Diligente, Lola recebeu, para montar o acevo da primeira biblioteca de Brasília, doações de embaixadas, de instituições culturais dos quatro cantos do país, de grandes intelectuais, de outras bibliotecas e de coleções familiares.

Em poucos meses, lá estavam, devidamente catalogados, os primeiros 3 mil livros, um mobiliário adequado, uma pequena coleção de obras de arte e algumas apreciáveis centenas de discos. Havia sala de leitura, empréstimos a domicilio, cursos, exposições, disseminação da informação artística e um espaço de convivência.

Lola encontrava-se no hospital, para o nascimento da sua filha, enquanto a biblioteca era destruída. Entre a tristeza e a alegria, ela ainda seria destituída da Novacap e devolvida para a Universidade de Minas Gerais, onde era professora.

A primeira escola

Em 15 de outubro de 1957, Dia do Professor, foi inaugurada, na Candangolândia, a primeira escola de Brasília, o Grupo Escolar nº 1 (em 1966, passou a chamar-se Escola Classe Júlia Kubistchek). Estavam lá, naquela data memorável: JK e dona Sarah; as filhas Maristela e Márcia; dona Júlia Kubistchek; o presidente da Novacap, Israel Pinheiro; o ministro da Educação e Cultura, Clovis Salgado; e os diretores da Novacap, Bernardo Sayão e Ernesto Silva.

Projetada por Niemeyer e edificada de forma emergencial (em 20 dias), a primeira escola já nascia com o ideário escolanovista e a orientação técnica do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos, dirigido por Anísio Teixeira. Com uma carga horária de ensino integral e duas turmas — das 7h30 às 15h e das 9h às 17h — a primeira escola de Brasília, além do curriculum clássico (história, português, matemática, ciências e geografia) oferecia, como atividades complementares, iniciação musical, artes plásticas, educação física, atividades de trabalho e de caráter social.

De acordo com os conceitos de Anísio Teixeira, os estudantes deveriam ser preparados, também, para o trabalho e a vida comunitária. Na vastidão do Cerrado, a primeira escola de Brasília, toda de madeira, pintada de branco, com pilotis, treliças e varandas, causou impacto pela sua delicadeza e beleza. Com os traços similares aos do Catetinho, passou a ser chamada de “O Catetinho da Educação”.

Coube ao diretor do Departamento de Educação e Difusão da Novacap, Ernesto Silva, identificar, entre as esposas e filhas dos funcionários e engenheiros, professoras devidamente habilitadas. Ele procurou professoras, também, em Goiânia e em Minas Gerais. Amábile Andrade Gomes, Maria do Rosário Verner, Célia Cheir, Maria de Lourdes Moreira Santos, Maria de Lourdes Cruvinel Brandão, Carmem Daher, Ana Pereira Leal e Santa Alves Soyer. Foi esse o grupo que iniciou as primeiras aulas e estruturou a primeira escola de Brasília, sempre observando as novas orientações pedagógicas de Anísio Teixeira, mas sem abrir mão da criatividade que as urgências e as circunstâncias exigiam. Santa Alves Soyer foi escolhida para ser a primeira diretora.

O grupo inaugural de professoras começou suas atividades compartilhando experiências, analisando e criando soluções para as especificidades e particularidades dos alunos — com origens regionais e experiências educacionais distintas — que constituiriam as primeiras turmas formais da primeira escola da capital em construção. Adaptar o currículo escolar para aquela realidade e momento histórico tão ricos quanto únicos foi um dos desafios. As execuções pelo canteiro de obras, onde estavam sendo erguidos os ministérios, a Praça dos Três Poderes e as Superquadras, encantavam e mobilizavam os alunos.

Fazia parte da agenda uma visita ao Catetinho onde, com frequência, encontravam Juscelino, indiferente à algaravia das crianças, reunido em alguma sala com Israel Pinheiro, Oscar Niemeyer, Bernado Sayão, Ernesto Silva e outros assessores. As execuções eram depois descritas, em trabalho escolar, pelos alunos. Um ano após a inauguração, a escola lançou o seu primeiro jornalzinho, A Voz do Estudante, com o subtítulo: É com os pés da criança que a Pátria caminha.

Além de inovadora, a Escola Parque Júlia Kubitschek daria forma e lugar ao extraordinário projeto de Anísio Teixeira para a nova educação em Brasília, a capital do Brasil. Lamentavelmente, a partir de 1966, a primeira escola da cidade foi se deteriorando em crescente abandono. Em 1969, foi interditada. Depois, virou abrigo de moradores de rua. Em 1980, foi tragada por um incêndio. As inúmeras propostas de tombamento, restauração e de reconstrução, até o presente momento, seguem ignoradas.

Jorge Henrique Cartaxo é jornalista, mestre em história pela Universidade Paris-Sorbonne

Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp