Em meio à imensidão do céu azul de Brasília, tons intensos de lilás e roxo começam a despontar e a chamar a atenção do brasiliense. É a chegada do jacarandá-mimoso, que traz novas cores ao arco-íris de árvores que colorem o Cerrado durante a seca. Nativa da América do Sul, a árvore floresce na capital entre setembro e novembro, com o ápice das flores entre setembro e outubro. Ao cair das folhas e nascer das flores, a espécie, que pode atingir até 15 metros de altura, aproveita a estação de estiagem para dar início à primavera.
Maria Ivanilza Moreira, 53 anos, é uma grande apreciadora das espécies que florescem no Cerrado. Ela conta que, em seus passeios de bike, tenta sempre aproveitar para contemplar e registrar a abundância roxa que começa a transformar a cidade. “Eu acho linda a troca das folhas pelas flores. Moro aqui faz tempo e todos os anos elas aparecem”, afirma. A servidora pública acredita que as árvores trazem beleza e a sensação de leveza em meio ao calor e à secura, característicos desta época do ano.
De nome científico Jacaranda mimosifolia, a espécie é da mesma família dos ipês. Apesar das semelhanças à primeira vista, as duas árvores diferem-se nas composições de suas folhas. Ao olhar de perto as pequenas partes individuais que formam o limbo da folha, é possível perceber a diferença. “Enquanto os jacarandás têm folhas compostas e bem divididas, o ipê tem folhas simples e maiores”, explica o doutor em ecologia e professor da Universidade Católica de Brasília (UCB), Stefano Salvo Aires.
Desabrochar
Ainda que diferentes nas folhas, ambas possuem a característica de perder todas as folhas para dar lugar às flores. A tendência é de que a floração do jacarandá comece após o término da floração completa dos ipês. No auge da estiagem, a baixa umidade provoca um estresse hídrico na árvore que faz com que as folhas caiam, e as flores desabrochem.
“As plantas vão passar por esse estímulo da estação seca, que vai sinalizar que a situação mais austera já passou. Conforme a umidade começa a aumentar, as sementes podem ser dispersas em condições melhores, e as flores aparecem”, esclarece o especialista. A planta sinaliza o começo da primavera, com a esperança de chuva para espalhar suas sementes”, explica Stefano.
Brenda dos Reis também se encanta com a beleza do roxo do jacarandá em meio à vegetação tomada pela seca. “A gente vê aqui, não tem uma gota de água, tudo seco, e a plantinha roxa se destaca”, diz. No intervalo do trabalho de farmacêutica no Ministério da Saúde, Brenda aproveita para esticar as pernas pela Esplanada e registrar a graça do jacarandá. “Já tinha visto algumas vezes, mas não sabia o nome dela. Estava aproveitando o descanso e acabei me deparando com as florzinhas”, afirma.
Natural do Pará e morando em Brasília há 8 anos, Cleiton Pereira confessa que nunca tinha reparado no jacarandá. Achava que era também um tipo de ipê. “Sempre reparei mais nos ipês aqui do Distrito Federal. Vi o amarelo na semana passada e achei que esse roxo também era ipê”, conta. Atendente em uma padaria no Sudoeste, ele desfrutou da sombra da copa da árvore para descansar no intervalo da jornada. “Já achava as flores muito bonitas antes, agora que descobri o nome, vou apreciar muito mais”, destaca o paraense.
Versátil
Além de seu valor estético na arborização urbana, a planta também possui outras utilidades. No tupi antigo, jacarandá significa “árvore de madeira dura”. Isso porque seu tronco possui madeira firme, pesada, compacta e durável para construir diversos materiais.
Além disso, nos últimos anos, os recorrentes episódios de desmatamento no Cerrado diminuíram a frequência com que a planta é encontrada, o que aumentou ainda mais a cobiça pela madeira de fácil manuseio. “Com ela, é possível fazer esculturas, artesanatos e até construir móveis”, destaca o ecologista. Na indústria de móveis, ela é considerada como madeira de luxo.
A árvore ainda pode se destacar pelo seu uso medicinal. Embora ainda não existam comprovações reais de seu uso terapêutico em humanos, alguns estudos revelam benefícios nas folhas e flores da planta. Um estudo publicado na PLOS ONE, em 2020, identificou nos extratos das folhas compostos fenólicos e flavonoides associados a atividades antioxidantes, anti-inflamatórias e antimicrobianas.
Outro trabalho, publicado na Heliyon, também encontrou nos extratos das flores substâncias como quercetina, ácido gálico, ácido cafeico e rutina, além de atividade antioxidante e capacidade de inibir algumas bactérias.
*Estagiária sob a supervisão de Tharsila Prates
Fonte Correio Braziliense
Foto: Minervino Júnior/CB/D.A.Press









