Os tons de amarelo dominam ruas, parques e avenidas da capital federal. Depois de uma espera maior do que a habitual, a floração dos ipês voltou a encantar brasilienses e visitantes, que têm parado para admirar, fotografar e registrar o espetáculo natural que transforma a cidade durante a estação seca. Em meio ao céu azul característico de Brasília, as copas floridas voltam a compor uma das paisagens mais emblemáticas do Cerrado e renovam o encanto dos moradores pela árvore símbolo da capital.
Segundo o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Brasília ocupa a quinta posição entre as cidades brasileiras com maior número de árvores nas ruas. De acordo com a Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap), a cidade possui cerca de seis milhões de árvores plantadas, das quais aproximadamente 10% são ipês, o que representa aproximadamente 600 mil exemplares espalhados pelo Distrito Federal.
A percepção de que a floração demorou mais a chegar neste ano tem explicação. De acordo com o biólogo e doutor em Botânica pela Universidade de Brasília (UnB) Marcelo Kuhlmann, o período de florescimento dos ipês está diretamente relacionado às condições ambientais e pode variar de um ano para outro.
“Todo ano o período pode variar alguns dias ou semanas, e as plantas também podem florescer mais de uma vez. Podem terminar uma florada e depois vir outra em seguida”, explica.
Para quem deseja apreciar o espetáculo, ainda há tempo. Segundo Kuhlmann, a tendência é de que a floração dos ipês continue até o fim da estação seca, em outubro, embora os períodos possam variar conforme as condições climáticas. Até lá, as árvores devem seguir colorindo a paisagem urbana e atraindo moradores para sessões de fotos improvisadas sob as copas floridas do espetáculo.
Mais do que um cartão-postal, os ipês funcionam como verdadeiros indicadores das mudanças sazonais do Cerrado. A cada ano, o surgimento das flores marca a passagem do inverno seco e reforça a relação entre Brasília e a vegetação que ajudou a construir a identidade visual da cidade.
Segundo o especialista, a floração é uma resposta fisiológica das árvores a fatores como frio, luminosidade e seca. “Quando essas condições mudam, altera-se também o período da floração”, afirma.
Os ipês desenvolveram ao longo de milhões de anos uma estratégia perfeitamente adaptada ao clima do Cerrado. Durante a estação seca as árvores perdem as folhas para reduzir a perda de água e concentram energia na reprodução, produzindo uma floração intensa e chamativa. Após a polinização surgem frutos com sementes leves, que são carregadas pelos ventos fortes típicos do inverno brasiliense. Com a chegada das primeiras chuvas da primavera, essas sementes encontram condições ideais para germinar.
“Todo esse ciclo está sincronizado com o clima do Cerrado. Os ipês evoluíram sob essas condições, alternando entre uma estação seca prolongada e outra chuvosa”, destaca Kuhlmann.
A diversidade de espécies também influencia o calendário das flores. O Brasil possui mais de 40 espécies nativas de ipês, distribuídas em diferentes biomas e ambientes. No Distrito Federal, geralmente o primeiro a florescer é o ipê-roxo, seguido pelo rosa, pelos amarelos e, por fim, pelos brancos.
“Mesmo entre espécies que florescem na mesma época, a intensidade e o momento da floração podem variar. Além disso, indivíduos da mesma espécie respondem de forma diferente dependendo da idade da árvore, das condições do solo, da disponibilidade de água e do microclima onde estão crescendo”, explica o pesquisador.
*Estagiária sob a supervisão de Malcia Afonso
Fonte Correio Braziliense
Foto: Minervino Júnior/CB









