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Especialistas comentam sobre ataques envolvendo pessoas em situação de rua

O Distrito Federal registra, em agosto, uma sequência de ocorrências envolvendo pessoas em...

O Distrito Federal registra, em agosto, uma sequência de ocorrências envolvendo pessoas em situação de rua como suspeitas ou vítimas de agressões. Na tarde de terça-feira, um homem de 36 anos foi preso pela Polícia Militar (PMDF) após agredir um motociclista com um pedaço de madeira, na 706 Norte. A vítima aguardava no semáforo quando o agressor começou a xingá-la, pegou um pedaço de madeira e a atingiu no braço e na cabeça. O motociclista sofreu uma lesão leve no braço. O homem foi preso e encaminhado à 5ª Delegacia de Polícia (Área Central).

Uma organização criminosa voltada para a prática de roubos, furtos, receptação e tráfico de drogas que utilizava pessoas em situação de rua para movimentar e ocultar entorpecentes no Cruzeiro e no Sudoeste foi alvo, ontem, de mandados de prisão e de busca e apreensão pela 3° DP (Cruzeiro). O grupo aproveitava a vulnerabilidade social dessas pessoas como engrenagem para viabilizar a cadeia de abastecimento na região. 

Esses não foram os primeiros casos registrados no mês. Em 4 de agosto, uma mulher foi ferida com um pedaço de vidro em uma parada de ônibus no Setor Comercial Sul. O agressor, segundo a polícia, tinha 11 passagens anteriores. Três dias depois, na madrugada de 7 de agosto, o zelador Wanderlei Souza Lima, 53 anos, foi agredido no Comércio Local Norte (CLN) 314 após um desentendimento com um homem em situação de rua.

Outro episódio ocorreu em 11 de agosto, quando Bruno Batista de Jesus, 30, entrou em um edifício na Superquadra Sul (SQS) 302 portando um facão e uma faca. Segundo a PMDF, ele feriu um morador e manteve uma idosa de 95 anos como refém. O homem foi baleado e morto por policiais militares durante a ocorrência. No dia seguinte, na mesma quadra, câmeras de segurança registraram Celso Delfino Pinheiro, 41, agredindo uma criança de 5 anos com um chute na cabeça.

A sequência de ocorrências também inclui casos em que pessoas em situação de rua aparecem como vítimas. No dia 13, uma mulher em situação de rua foi assassinada a facadas na QNM 3, em Ceilândia. Na mesma data, em Águas Claras, três pessoas em situação de rua se envolveram em um confronto com facas e pedras.

Responsabilização

Advogado criminalista, Marcus Gusmão explica que pessoas em situação de rua que cometem crimes violentos são responsabilizadas criminalmente da mesma forma que qualquer outro cidadão, podendo responder a processo e receber as penas previstas em lei. “A situação de vulnerabilidade pode interferir em razão da dificuldade em encontrá-los para a prisão ou mesmo para o esclarecimento dos fatos”, afirmou.

Sobre suspeitos com antecedentes que são soltos após novas ocorrências, o advogado destacou que cada caso precisa ser analisado individualmente e lembrou que a prisão preventiva é uma exceção no sistema brasileiro. “É preciso olhar cada caso e pensar que nem sempre a alternativa é prender. A nossa Constituição diz que a regra é a liberdade e a prisão, a exceção”, afirma. Para ele, é necessário investigar as causas da criminalidade para buscar formas de reduzir a reincidência. 

Questão social

Especialista em direitos humanos e professor do Ibmec Brasília, Tédney Moreira defende que a resposta do poder público não se limite à repressão e à criminalização. Segundo ele, a situação de rua pode ter diferentes causas, como problemas relacionados ao uso de álcool e outras drogas, violência familiar, insegurança alimentar e habitacional, além de exclusão social decorrente de neurodivergências ou deficiências. “Não é possível se pensar uma única solução, se as causas são múltiplas. Somente políticas transversais podem alcançar resultados mais eficientes”, diz.

O professor ressalta que pessoas em situação de rua que cometem crimes devem ser responsabilizadas individualmente, mas sem generalizações. “É tão absurdo dizer que todas as pessoas ricas são criminosas quando uma delas comete um crime quanto afirmar que todas as pessoas em situação de rua são perigosas quando uma delas é. Essa estigmatização só gera mais violência”, destaca.

A Secretaria de Desenvolvimento Social do Distrito Federal (Sedes-DF) afirma que a atual gestão vem adotando medidas para fortalecer a política de assistência social e ampliar o atendimento à população em situação de vulnerabilidade. Entre as ações, estão o reajuste dos valores repassados às entidades parceiras que mantêm serviços de acolhimento e a criação da Política de Acolhimento Humanizado e Atenção Integral à População em Situação de Rua, regulamentada neste ano, com previsão de integração entre assistência social, saúde, moradia, trabalho e direitos humanos. A pasta informou a ampliação do Serviço de Acolhimento Institucional para Adultos e Famílias do Areal (Saiafa), de 150 para 186 vagas, e a instalação de um novo Centro POP na região central do Plano Piloto, com estrutura ampliada para atendimento, alimentação, higiene, convivência, esporte e lazer.

De acordo com a Sedes, entre janeiro e julho de 2026, foram realizados 63,2 mil atendimentos a cerca de 9,4 mil pessoas em situação de rua. O atendimento inclui os Centros POP, os Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas), 26 equipes do Serviço Especializado em Abordagem Social (Seas) e ações integradas realizadas em diferentes regiões administrativas. No período, a pasta participou de 243 ações integradas, que resultaram em 86 acolhimentos, além de registrar 11,1 mil atendimentos nos Centros POP. Atualmente, mais de 900 pessoas são acompanhadas em unidades de acolhimento, enquanto as duas unidades do Hotel Social oferecem, juntas, 400 vagas diárias.

Fonte Correio Braziliense
Foto: Agência Brasília

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