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Uso da crise para cabalar voto

A crise do Supremo Tribunal Federal (STF) não tem sido somente uma farta...

A crise do Supremo Tribunal Federal (STF) não tem sido somente uma farta munição para os presidenciáveis de direita tentarem desgastar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, atrelando-o aos ministros diretamente relacionados ao caso Master — sobretudo Alexandre de Moraes. Tornou-se um ativo eleitoral também para postulantes ao Senado, que vêm explorando o tema nas campanhas ao ressaltarem a necessidade de se fazerem investigações contra integrantes da Corte.

O Correio analisou a posição dos candidatos ao Senado que lideram as pesquisas desde julho nos três principais colégios eleitorais do país: São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), esses estados juntos correspondem a 40% do eleitorado nacional.

Os embates no STF não pouparam nem mesmo candidatos ao Senado aliados de Lula, que foram levados a se posicionarem para não deixarem o eleitor escapar. Em São Paulo, principal colégio eleitoral do país, Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (MDB) subiram o tom contra Moraes. Pediram investigação do ministro e reformas no Judiciário.

“Tem de colocar um freio de arrumação urgente e imediato”, defendeu Tebet. Marina avaliou as evidências que ligam o Moraes a Vorcaro como “gravíssimas” e que “precisam ser esclarecidas”. “Considero que o afastamento temporário do ministro Alexandre de Moraes, seguindo o devido processo institucional, pode ser a melhor maneira de ele exercer plenamente seu direito de defesa”, cobrou.

Em Minas Gerais, Marília Campos, ex-prefeita de Contagem e candidata do PT ao Senado, exige a apuração dos indicíos, mais transparência e a criação de um Código de Ética para os magistrados. “Reforma é necessária. Precisamos de um Código de Ética e de mais transparência. Isso fortalece o Judiciário. Onde houver indício de crime, tem que haver investigação”, disse.

Cobrança

No Rio de Janeiro, a deputada federal Benedita da Silva, também candidata ao Senado pelo PT, cobrou investigações e mudanças no STF, como definição de mandatos de 12 anos para os ministros, Código de Ética e impeachment caso haja práticas criminosas. “Defendo que aqueles que se aproveitaram de benefícios ilegais, e fazem investigação seletiva, respondam por seus atos. Mas não bastam medidas pontuais, é preciso reduzir o risco de mal uso do cargo”, frisou, aproveitando para alfinetar o ministro André Mendonça, do Supremo, que vem sendo acusado de direcionar apurações contra Moraes.

Já os candidatos da direita mantiveram o discurso das reformas no Judiciário e do impeachment de Moraes. Acreditam que o cansaço do eleitor com aquilo que classificam como desmandos do Supremo favorecerá a construção de uma maioria ideológica no Senado, o que seria fundamental para dar andamento aos processos de impeachment que barrados pelo presidente da Casa, senador Davi Alcolumbre (União-AP) — que deixou claro não pretender dar andamento a nenhum deles. Por sinal, para tentar contorná-lo, na semana passada foi apresentado um projeto para alterar o regimento do Senado e permitir que sejam abertos processos de impeachment quando a matéria tiver o apoio de 49 senadores.

Mesmo com o adiamento do julgamento de uma eventual investigação de Moraes, o tema deve influenciar a escolha do eleitor. É o que antecipa Carlos Eduardo Borenstein, doutor em ciência política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

“Mesmo que tenham outros temas, sobretudo no que diz respeito à economia e assuntos de interesse dos estados, a pauta da crise do Supremo vai continuar na agenda. Funciona como uma espécie de atalho para o eleitor processar sua decisão de voto”, explica.

Desconfiança

Há dados que endossam o que diz Borenstein. Pesquisa Quaest divulgada em 14 de setembro mostra que a desconfiança da população com o STF aumentou 10 pontos percentuais em apenas um mês, alcançando 56%. É o maior percentual desde dezembro de 2022. Além disso, o levantamento trouxe que a preocupação dos brasileiros com a corrupção subiu oito pontos percentuais em 12 dias, sendo o segundo problema mais citado pelos entrevistados.

Borenstein destaca que a eleição para o Senado tem uma dinâmica própria. Por exigir apenas maioria simples, os candidatos podem adotar discursos mais radicais e focados em seus nichos, diferentemente das disputas para a Presidência e para os governos estaduais, que exigem a maioria absoluta dos votos e forçam a busca pelo eleitor moderado.

“É diferente do pleito para presidente e para governador, onde os candidatos têm que fazer 50%. Aí, de fato, o candidato que adotar uma narrativa muito radical pode afetar o eleitorado independente”, observa.

Para Borenstein, a pauta anti-Supremo tende a beneficiar a direita nas urnas na disputa pelo Senado. “O bolsonarismo faz o discurso antissistema, que alimenta a preocupação com a corrupção e faz com que se fortaleça o antipetismo. A esquerda tem dificuldades — até pelas relações que o Lula teve com o Supremo nos últimos três anos — de, por exemplo, defender o impeachment de Moraes”, alerta.

Ainda assim, nos principais colégios eleitorais do país, o quadro da corrida ao Senado está cristalizado na proporção 50-50, com mais dificuldades para os nomes associados ao bolsonarismo. No Rio de Janeiro, a tendência é de que a esquerda despeje votos em Benedita, que lidera a pesquisa Quaest ao Senado com 15% das intenções. Na direita, Carlos Jordy (PL), Carlos Portinho (PL) e Marcelo Crivella (Republicanos) brigam pela escolha do eleitor afinado com esse campo ideológico.

Em São Paulo, Simone Tebet e Marina Silva estão na frente. Mas André do Prado (PL) e Guilherme Derrite (PP) estão próximos e tentam abocanhar a segunda vaga.

No caso de Minas Gerais, Marília Campos lidera com 13% das intenções de voto, contra cinco nomes ligados à direita. Carlos Viana (PSD), Aécio Neves (PSDB) e Domingos Sávio (PL) se digladiam para ver com quem fica a outra cadeira.

Fonte Correio Braziliense
Foto: Vinicius Doria/CB/D.A Press

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