A forma como o trabalho está organizado no Brasil pode estar impactando diretamente a saúde mental dos profissionais.
Um novo levantamento conduzido por Renata Rivetti em parceria com o Instituto Ideia mostra que trabalhadores submetidos à escala 6×1 apresentam níveis significativamente maiores de solidão, revelando um efeito que vai além da rotina e atinge a estrutura social do indivíduo.
Dados do Mapa da Felicidade Real no Brasil 2026 indicam que 16% dos trabalhadores na escala 6×1 não têm qualquer rede de apoio. Entre aqueles que atuam no modelo 5×2, esse número cai para 8%.
O levantamento, realizado com 1.500 entrevistas em todo o país, mostra que o tempo disponível para construir relações fora do trabalho tem impacto direto na sensação de pertencimento e suporte social.
Desigualdade amplia a solidão
A ausência de rede de apoio não é distribuída de forma homogênea. Entre profissionais com ensino superior, apenas 5% relatam não ter com quem contar em momentos difíceis. Já entre aqueles com escolaridade até o ensino fundamental, esse índice sobe para 18%.
O mesmo padrão aparece na renda. Nas classes D e E, 18% enfrentam isolamento, enquanto nas classes A e B o número cai para 7%. O dado evidencia que a solidão acompanha as desigualdades já presentes no mercado de trabalho.
Impacto direto na saúde e produtividade
A Organização Mundial da Saúde aponta que a falta de conexão social pode causar danos comparáveis ao consumo de 15 cigarros por dia. O isolamento está associado ao aumento de riscos como depressão, doenças cardiovasculares e queda de produtividade.
Para empresas, o tema deixa de ser apenas social e passa a ser estratégico. Modelos de trabalho que limitam o tempo para relações pessoais podem gerar impactos diretos no desempenho e no engajamento das equipes.
Liderança precisa rever o modelo de trabalho
A discussão sobre saúde mental nas organizações ganha um novo componente. Não se trata apenas de oferecer suporte interno, mas de avaliar se o próprio modelo de trabalho contribui para o isolamento.
Segundo Renata Rivetti, trabalhadores sem rede de apoio fora do ambiente profissional tendem a ser mais vulneráveis dentro dele. A falta de tempo para construir vínculos impacta diretamente o bem-estar e configura um risco psicossocial relevante.
Em países com altos índices de bem-estar, como Finlândia e Dinamarca, a proteção contra o isolamento está ligada a estruturas coletivas. No Brasil, essa rede é majoritariamente individual, o que amplia o impacto da solidão quando ela não existe.
O cenário reforça um ponto central para a liderança. A gestão do trabalho não influencia apenas resultados operacionais, mas também a qualidade das relações e a saúde emocional das equipes.
Por Revista Plano B
Fonte Exame
Foto: Delmaine Donson/iStockphoto









