Outros posts

Projeto embeleza paradas de ônibus com símbolos do Cerrado e poesia

Quando o professor de luta Márcio Luca Beda, morador do Núcleo Rural Lago...

Quando o professor de luta Márcio Luca Beda, morador do Núcleo Rural Lago Oeste, recorria ao transporte público na região, encontrava paradas de ônibus pichadas e, por vezes, inutilizáveis. “Pintavam para fazer propaganda de político ou colocavam um número de telefone, usando tinta cal, então, para falar a verdade, a galera nem estava sentando na parada”, conta. Os moradores precisaram construir uma parada improvisada do outro lado da DF-001. “Ficávamos em outro lugar mesmo. A gente não senta porque aí vai manchar o uniforme com a tinta cal, branca, amarela. Só de poder usá-la agora, para mim, é suficiente”, afirma. 

Isso foi possível, porque no início deste ano, a Associação dos Produtores do Núcleo Rural Lago Oeste (Asproeste) obteve, junto à Secretaria de Estado de Transporte e Mobilidade (Semob-DF) e ao Departamento de Estradas e Rodagem (DER-DF), a autorização para usar as 23 paradas de ônibus do local para ações educativas. Foi daí que surgiu o projeto Rota Poética do Cerrado. A partir da contribuição dos moradores, os locais recebem a pintura de um trecho de poesia — de artistas que têm produção voltada para a exaltação da natureza, como Cora Coralina e Manoel de Barros — e símbolos da fauna e flora do Cerrado, como o ipê-amarelo, a capivara e o tucano.

A ideia inicial da Asproeste, conta Marilza Speroto, presidente da Associação, era construir o projeto com conteúdo disciplinar, e não artístico. “Não bote fogo, não jogue lixo fora, não corte o Cerrado. Quando recebemos a autorização, pensamos em fazer algo mais lúdico, que fale sobre a poesia e o meio ambiente”, explica. Depois, levaram a ideia aos moradores e receberam o apoio de cinco delas. O projeto seria levado, então, apenas às paradas dessas cinco ruas — o que mudou logo depois de iniciarem o trabalho. “As pessoas viram aquela beleza da parada e ficaram apaixonadas. Foi ‘chovendo’ gente querendo e hoje adotamos a última rua”, diz. 

Financiado inteiramente pelos moradores, a Rota Poética do Cerrado adota o amarelo, cor padrão do DER-DF, e adiciona, nas paredes, as frases e animais representativos. O projeto depende da “adoção” de cada parada por um artista voluntário. “Hoje, chegou um menino de 12 anos e falou que queria adotar uma parada e, agora, estamos com todas as paradas contempladas, da Rua 0 até a 20”, conta Marilza. “É um custo-benefício muito lindo passar numa parada que era toda pichada e agora vemos crianças tirando fotos e pessoas se interessando por poesia.”

Os locais também receberam as artes de Henrique Behr e do grafiteiro Vinicius Lapixa, que conheceu a Asproeste em um encontro cultural na região e, desde então, faz parcerias com a organização. “Fui convidado para fazer parte do projeto e achei muito interessante, porque a questão ambiental é muito atual e é necessário conscientizar as pessoas sobre a necessidade da preservação e do cuidado”, diz. Para a Rota Poética do Cerrado, os moradores de cada rua selecionam um animal ou planta da região e criam uma arte com o uso de inteligência artificial. Depois, Lapixa adapta o desenho para ser executado em grafite. 

Paisagem revitalizada

Os moradores da região compartilham a alegria de ter os locais de uso diário reformados. “Tinha alguns artistas da região que faziam grafite e realmente ficava bonito, eles colocavam boas mensagens, mas alguns vândalos picharam por cima e deixavam as paradas feias e rabiscadas”, relata Márcio Luca Beda. Para ele, as paradas não apenas voltaram a ser utilizadas pela população — antes, tomadas pela pintura de propagandas —, como também relembram os moradores do local onde vivem. “As mensagens são bonitas, sobre conscientização, ao lado do Parque Ecológico. Às vezes, a gente esquece. Tem uma falando sobre os bichos que a gente já não encontra mais”, conta.

A moradora da Rua 5 Giselle Silva ressalta o papel do projeto para a conscientização sobre a preservação ambiental. “Por ser uma região especial, um paraíso na terra, o Lago Oeste precisa ser preservado. A gente tem que estar com esse olhar atento”, afirma. Para ela, o projeto está sendo bem recebido pela comunidade. “Antes víamos muita pichação sem sentido e já estamos há quase 20 dias com as paradas e ainda não teve nenhum estrago. Acho que está sendo bem recebido pela comunidade”, diz.

Márcia de Luca, psicóloga e moradora da Rua 0 que participou da idealização do projeto, considera que a Rota Poética do Cerrado atravessa o campo da cultura. “Estamos falando de participação, de comunidade, e isso é o que é legal nesse projeto. Você se sente muito mais comprometido com a preservação do Lago Oeste como uma entidade”, diz. “Estamos trazendo uma série de ações que estão todas coordenadas. Essa veio com mais visibilidade, mas ela faz parte de um conjunto de ações que a comunidade está participando.” Até o momento, a Asproeste já completou a pintura de 11 das 23 paradas previstas para serem reformadas. 

*Estagiária sob a supervisão de Tharsila Prates

Fonte Correio Braziliense
Foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press

Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp