A questão da população em situação de rua é mais uma das pautas que vai influenciar na escolha dos eleitores do Distrito Federal nas eleições de 2026. A pesquisa Correio/Opinião Inteligência Política constatou que 92,8% dos eleitores afirmam que o tema deve ser importante ou importantíssimo para o próximo governador ou governadora da capital. Em 2025, o DF contabilizava 3.521 pessoas em situação de rua, segundo o 2º Censo Distrital da População em Situação de Rua.
Secretário de Segurança Pública do Distrito Federal, Alexandre Patury destacou que a maior parte das pessoas em situação de rua está em condição de vulnerabilidade, mas afirmou que há casos de criminosos e pessoas com problemas relacionados ao uso de drogas que impactam na percepção de segurança da população. “A grande maioria são pessoas hipossuficientes, mas existem bandidos infiltrados, pessoas que vendem drogas e outras com problemas de drogadição. Mesmo sendo uma minoria, elas acabam colocando uma pecha de insegurança sobre toda essa população”, afirmou.
Patury ressaltou que um dos principais desafios é o atendimento a pessoas com transtornos mentais ou em grave dependência química, especialmente em casos em que há risco para elas próprias ou para terceiros. Ele defendeu a implementação da internação involuntária humanizada, prevista em lei aprovada pela Câmara Legislativa e sancionada pelo governo. “Não se trata de retirar direitos, mas de preservar vidas. Quando uma pessoa não tem discernimento, coloca a própria vida em risco e ameaça outras pessoas, ela precisa ser atendida e socorrida”, esclareceu.
O secretário defendeu mudanças na legislação penal e processual para evitar que criminosos reincidentes retornem às ruas, e reforçou a necessidade de ampliar o combate às drogas. “Enquanto houver consumidor, haverá vendedor. É preciso atuar no tráfico, mas também na prevenção, no tratamento e na educação. Os próximos legisladores têm que reavaliar a permissividade da legislação frágil que bota essas pessoas novamente nas ruas”, declarou.

Além do acolhimento
“O resultado da pesquisa é bastante significativo, porque revela que a população do DF reconhece a situação de rua como uma questão que precisa ocupar lugar de prioridade na agenda do próximo governo. Estamos falando de uma das expressões mais graves da desigualdade social e da ausência ou insuficiência da proteção do Estado”, avaliou a pesquisadora e professora do curso de serviço social e do programa de política social da Universidade de Brasília (UnB), Maria Elaene Rodrigues.
Na análise da especialista, é importante mudar a forma como o debate é apresentado. “A população em situação de rua não pode ser tratada como um problema urbano, de segurança ou de ocupação dos espaços públicos. O problema não são as pessoas, são as condições sociais que produzem e reproduzem a situação de rua. Desemprego, trabalho precário, ausência de moradia, pobreza, racismo, violência e fragilidade da rede de proteção social fazem parte dessa realidade”, destacou Maria Elaene.
Especialista em direitos humanos e professor do Ibmec Brasília, Tédney Moreira ponderou que políticas públicas voltadas à população em situação de rua precisam ir além do atendimento emergencial e criar condições para que essas pessoas reconstruam suas vidas. “Uma política duradoura precisa atuar de forma intersetorial, envolvendo moradia, assistência social, saúde mental, educação, qualificação profissional, saúde pública, trabalho e renda, além da reconstrução dos vínculos familiares e comunitários. O acolhimento é necessário, mas não pode se transformar em destino permanente. A política pública precisa construir autonomia para que a pessoa consiga reconstruir seu projeto de vida”, defendeu.
Moreira defendeu que a efetividade das políticas seja acompanhada por indicadores que vão além da redução do número de pessoas vivendo nas ruas. Segundo ele, é preciso monitorar quantas conseguem acessar moradia permanente, emprego, renda, documentação, benefícios sociais e atendimento regular de saúde, além daquelas que deixam os serviços de acolhimento e não retornam à situação de rua. “Uma política bem-sucedida não é aquela que torna a população em situação de rua menos visível, mas aquela que reduz efetivamente a necessidade de alguém viver na rua”, afirmou Moreira.
“A próxima gestão do GDF precisa tratar essa questão como responsabilidade pública e como prioridade da política social, com orçamento, planejamento, serviços de qualidade e ações permanentes. Não se enfrenta a situação de rua tornando a pobreza menos visível. Enfrenta-se garantindo direitos e criando condições concretas para que as pessoas possam sair das ruas com dignidade e autonomia. Para isso acontecer, precisa ser prioridade na pauta do governo e ter orçamento público”, sugeriu Maria Elaene.
Propostas
O Correio procurou os candidatos ao Governo do Distrito Federal que aparecem na última pesquisa Correio/Opinião para conhecer as propostas e medidas previstas para enfrentar a situação caso assumam o Palácio do Buriti.
Perguntada, Celina Leão (PP) destacou as medidas adotadas no atual governo, como a aprovação da lei de internação involuntária humanizada e as ações de acolhimento e assistência social feitas por equipes multidisciplinares para “ajudar aquelas pessoas que podem se autoferir ou ferir terceiros”. A atual governadora disse “enfrentar o problema de frente, sem preconceito e com muita responsabilidade e com um olhar diferenciado, humanizado”.
José Roberto Arruda (PSD) afirmou que mudará os Centros Pop para lugares mais distantes e fará um trabalho social e policial. “Para, primeiro, fornecer passagem para os que querem voltar para os seus estados de origem; segundo, dar tratamento para os que são dependentes químicos; e, terceiro, tirar da rua os vagabundos que estão praticando assaltos à luz do dia”, disse.
O petista Leandro Grass ressaltou que sua gestão vai investir em abordagem social qualificada, ampliar os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e a assistência à saúde mental, além de fortalecer a rede socioassistencial e garantir moradia, renda e reinserção familiar. “Segurança pública entra para proteger, não para criminalizar quem está em situação de extrema vulnerabilidade. Temos profissionais capacitados em todas as áreas para fazer esse trabalho com excelência. Precisamos valorizar esses servidores e fazer investimentos para melhorar as condições de trabalho e de atendimento”, destacou.
Ricardo Cappelli (PSB) afirmou que é preciso enfrentar a “raiz do problema” e destacou que pretende encarar o problema com “seriedade, atacando suas causas e oferecendo oportunidades para que essas pessoas reconstruam suas vidas”. Para isso, o candidato defendeu a necessidade de equipes multidisciplinares capazes de identificar as causas da situação de rua. “É preciso fazer esse diagnóstico e, a partir dele, oferecer o encaminhamento adequado”, afirmou. Cappelli afirmou que a situação não é, naturalmente, um problema de segurança pública, mas tem reflexos na segurança por parte dessas pessoas que se envolvem em delitos.
Na visão de Paula Belmonte (PSDB), não há solução isolada para a questão, no entanto, a população em situação de rua precisa ser tratada com humanidade e responsabilidade. A candidata propõe uma integração entre a assistência social, saúde mental, tratamento da dependência química, qualificação profissional e políticas de reinserção social, em parceria com a sociedade civil. “Ao mesmo tempo, o Estado deve garantir ordem nos espaços públicos e segurança para toda a população. Nosso compromisso é cuidar das pessoas sem abrir mão da responsabilidade com a cidade”, enfatizou.
No projeto de Kiko Caputo (Novo), a população deve receber uma reestruturação do atendimento e ampliação da capacidade da rede de acolhimento como parte do princípio de que a permanência nas ruas ou em serviços de acolhimento não deve representar uma condição permanente. “Mas uma etapa de proteção voltada à reconstrução da autonomia e da inclusão social. Com a reorganização da rede distrital de assistência para integrar Centros de Referência Especializados para População em Situação de Rua”, afirmou.
Samara Mineiro (UP) defendeu uma política de atendimento integral para essa população, com ampliação do acesso à saúde mental e reabilitação a partir do fortalecimento do Caps, além da disponibilização de moradia e renda mínima. “A partir desse tratamento inicial, fazer a integração dessa pessoa ao mercado de trabalho, para que ela possa ter uma renda própria”, destacou. A candidata ressaltou a contratação de novos servidores e a construção de novos espaços para o atendimento da população em situação de rua.
A proposta de Robson Raimundo (PSTU) inclui a ampliação dos Caps e a construção de centros de atendimento à população de rua em todas as regiões administrativas, com alojamento individual, cursos profissionalizantes, lavanderias, refeitórios, unidades básicas de saúde especializadas, suporte jurídico e assistentes sociais. “Propomos a criação de uma cooperativa com apoio e subsídio do GDF para garantir renda a essa população, além de uma política de auxílio-aluguel até que as pessoas tenham moradia própria e sem custos. Defendemos, por fim, a implementação de uma política de redução de danos para dependentes químicos, sem internação forçada”, declarou.
A pesquisa Correio/Opinião Inteligência Política foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número DF-04077/2026. Realizada entre 30 de julho e 1º de agosto, ela ouviu 1.109 eleitores de 31 regiões administrativas do DF.
Fonte Correio Braziliense
Foto: Ed Alves/CB/DA.Press








