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Pare de vender propósito para quem está comprando autenticidade

Há uma cena que eu vivo com frequência em fóruns de RH pelo...

Há uma cena que eu vivo com frequência em fóruns de RH pelo Brasil. O executivo sobe ao palco, fala com genuína convicção sobre o programa de propósito da empresa, sobre a missão transformadora, sobre como o trabalho precisa ter significado. A plateia acena. Termina a apresentação. E na hora das perguntas, alguém levanta a mão: “mas por que a Geração Z ainda não engaja?”

A resposta quase sempre aponta para falta de paciência, excesso de expectativa, uma geração que quer tudo rápido. Raramente alguém arrisca a hipótese mais incômoda: e se o problema estiver na pergunta?

Trabalho com jovens há mais de duas décadas. E o que os dados mostram hoje confirma o que vejo na prática todos os dias: a Geração Z não chegou ao mercado querendo salvar o mundo pela empresa em que trabalha. Ela chegou querendo um lugar onde possa ser ela mesma.

Isso muda tudo.

O erro de casting que o mercado insiste em cometer
O problema central é simples: o mercado continua oferecendo propósito como resposta para uma geração que está buscando outra coisa — compatibilidade real entre quem ela é e o ambiente onde trabalha.

Existe uma distinção que o debate corporativo brasileiro ainda não fez com clareza: Millennials e Geração Z não compartilham a mesma relação com trabalho — e o mercado ainda os trata como se fossem a mesma pessoa.

Os Millennials construíram identidade em torno de narrativas coletivas. Queriam trabalhar em empresas que faziam o bem, que tinham impacto, que eram parte de algo maior. Isso moldou uma década inteira de employer branding. O problema é que esse modelo ficou mas a geração é outra.

Pesquisas de comportamento de consumo mostram essa virada com precisão: enquanto o Millennial consumia para pertencer a um grupo, a Geração Z consome — e trabalha — para afirmar sua individualidade. Ela não quer rótulo. Não quer ser representada pela empresa. Quer ser respeitada como indivíduo dentro dela.

A Geração Z não quer trabalhar para a sua causa. Quer trabalhar em um lugar onde não precise atuar um personagem para conseguir ficar.

Isso não é capricho. É integridade.

O Deloitte Global Survey 2024, com quase 23 mil respondentes em 44 países, é direto: 40% da Geração Z se sente estressada o tempo todo ou na maior parte do tempo. O principal fator de escolha de emprego não é impacto no mundo. É equilíbrio entre vida pessoal e trabalho.

No Brasil, os números têm outra escala. Em 2024, o Brasil bateu recorde de 472.328 licenças médicas por questões psicológicas — alta de 68% em relação ao ano anterior, segundo o Ministério da Previdência Social.

Estamos entre os países que mais adoecem seus jovens profissionais — e ainda chamamos isso de falta de resiliência.

Existe uma incoerência estrutural que o mercado evita nomear: as empresas exigem velocidade, adaptabilidade e performance — competências que essa geração desenvolveu — mas não oferecem o ambiente psicológico que sustenta essa entrega. Cobram o ritmo. Não entregam a estrutura. E depois perguntam por que o jovem saiu.

Isso não elimina fatores clássicos como remuneração, crescimento ou estabilidade — mas muda profundamente o peso da cultura e do ambiente na decisão de permanecer.

Nos últimos anos, propósito virou produto. Relatórios de ESG ganharam design sofisticado. Declarações de missão viraram peça de marketing. Empresas aprenderam a linguagem do impacto.

Essa geração cresceu vendo isso — e desenvolveu um radar muito preciso para incoerência. O que ela avalia não é o tamanho da missão declarada. É a distância entre discurso e prática: o líder que fala de inclusão e silencia a divergência, a flexibilidade que desaparece no primeiro trimestre difícil, o feedback que nunca acontece. Isso não é idealismo. É leitura de ambiente. E essa geração lê rápido, muito rápido.

Pesquisa do ecossistema Great People & GPTW revela que 68% dos profissionais apontam dificuldade de adaptação das empresas na relação com a Geração Z — mais que o dobro do segundo grupo geracional. A resposta corporativa quase sempre é “precisamos entender melhor essa geração”. A resposta honesta seria outra: precisamos entender melhor o que estamos oferecendo a ela.

O turnover que ninguém quer explicar direito
Existe um movimento claro nas empresas brasileiras: investimento crescente em comunicação de cultura enquanto a cultura real permanece estagnada. Troca-se o nome do RH para “People”. Redesenham-se valores. Pintam-se paredes com palavras bonitas. Mas o modelo de gestão segue o mesmo — liderança sem feedback, avaliação ultrapassada, promoção por tempo de casa.

A Geração Z entra, observa, lê os sinais e faz uma conta simples. E vai embora.

A rotatividade do mercado de trabalho formal no Brasil atingiu patamar recorde: 36% dos trabalhadores com carteira assinada mudaram de emprego nos últimos 12 meses — contra 25% há cinco anos, segundo levantamento da LCA Consultores com base no CAGED. Entre os jovens de 18 a 24 anos, esse índice sobe para 41%. Antes da pandemia, era de 22%.

A Geração Z tende a permanecer menos tempo em cada trabalho do que as gerações anteriores no início de carreira — movimento consistente com a busca por ambientes mais alinhados às suas expectativas.

Estudo publicado pela Fundace com jovens da Geração Z em empresas brasileiras de grande porte identificou os três principais motivos de saída voluntária: desalinhamento entre valores pessoais e organizacionais, poucas oportunidades de crescimento e líderes autocráticos que não dialogam com o time.

Nenhum desses fatores tem a ver com falta de paciência. Todos têm a ver com falha de gestão. A explicação do mercado continua sendo “problema da geração”. Não é. É problema de ambiente.

A virada não está em criar mais programas de propósito. Está em parar de confundir propósito com narrativa.

A Geração Z não quer que a empresa salve o Amazonas. Quer que o gestor apareça para a reunião de feedback que marcou. Quer que a política de flexibilidade valha na segunda-feira de manhã, não só no material de recrutamento. Quer que a cultura real e a cultura declarada sejam, minimamente, a mesma coisa.

Há uma diferença enorme entre uma empresa que tem uma causa bonita e uma empresa onde você pode ser quem você é numa segunda-feira às 8h. A Geração Z tende a priorizar a segunda.

O mercado demorou uma década para entender os Millennials. Está repetindo o erro com a geração seguinte — e desta vez, os dados chegaram mais rápido do que a disposição de mudar.

A questão não é o que essa geração quer. É o que as empresas ainda não estão dispostas a oferecer.

Foto: Maskot/Getty Images

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