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O problema de esperar o ‘grande momento’ na carreira

As tendências estão mortas. Foi assim que a futurista Amy Webb abriu sua...

As tendências estão mortas. Foi assim que a futurista Amy Webb abriu sua apresentação no South by Southwest (SXSW), o mais famoso festival de tecnologia e inovação do mundo. O velório dos seus tradicionais relatórios de tendências é o diagnóstico de que o mundo mudou rápido demais. Quando conseguimos compreender uma tendência, ela já ficou para trás. Entramos, segundo ela, na era da convergência.

Talvez essa seja a melhor forma de entender também o que está acontecendo com as carreiras. A minha geração, pelo menos, cresceu acreditando que ter um diploma e uma carreira estável eram suficientes para galgar postos mais altos – sempre na mesma empresa, é claro –, até chegar aos cargos de liderança.

Aprendemos a olhar para os grandes marcos como checkpoints de uma corrida, lugares onde precisamos chegar dentro de um certo tempo. Aos 18, já definir qual profissão deseja seguir e entrar em uma faculdade. Antes de se formar, já ter estagiado. Depois, conseguir seu primeiro emprego, e, antes dos 30 anos, ser promovido e ter uma carreira já bem consolidada. Esquecemos que em uma corrida, o que conta é cada passo que damos, é isso que define onde e quando chegamos.

Sim, existem grandes decisões, mas o que realmente muda o jogo são aquelas microescolhas que ninguém publica no LinkedIn. É o e-mail que você decidiu enviar, ou não. É aquela reunião em que você levantou a mão e resolveu divergir das demais opiniões. São as pessoas com quem você passou a se relacionar. As ideias que guarda para si. Os erros do percurso. Os projetos que recusou com medo de não dar conta, e especialmente aqueles que você aceitou mesmo sem se sentir preparado.

No dia a dia, fazemos escolhas desde o momento em que acordamos. Nada soa tão definitivo – afinal, são tantas decisões que, por vezes, até parecem ser tomadas de forma automática –, mas é aí que o jogo acontece.

Carreira é consequência, consequência de macro decisões, mas, especialmente, das micro. Esse é um ponto desconfortável, já aviso: não é só o que você faz que constrói a sua carreira. É também tudo aquilo que você evita fazer.

Gosto de recorrer à história da Kodak para ilustrar o que acontece quando a oportunidade bate à porta, mas nos falta coragem para recebê-la. Muito antes das concorrentes, a Kodak criou a primeira câmera digital em 1975, mas optou por engavetar o projeto a fim de preservar seu modelo de negócio, os filmes fotográficos. A empresa amargou essa decisão por décadas, até o pedido de falência em 2012. Não foi falta de capacidade técnica, foi por perder uma chance, e com ela, barrar várias oportunidades.

A diferença entre quem cresce e quem estaciona raramente está num grande turnpoint. Está na quantidade de vezes em que a pessoa topou entrar no jogo meio despreparada mesmo. Meio com medo. Meio sem saber onde aquilo daria.

Um estudo interno da Hewlett-Packard indicou que homens tendem a se candidatar a vagas quando atendem cerca de 60% dos requisitos, enquanto mulheres só o fazem ao atingir praticamente 100%. Ou seja: tem gente esperando o aval do universo, ao mesmo tempo que há quem aperte o botão “enviar” com 40% de dúvida e 60% de coragem.

Alguém poderia nomear isso como sorte, mas, como já dizia Sêneca, sorte é o encontro entre preparação e oportunidade. Quem sabe seja mais preciso chamar de consequência. A oportunidade raramente bate na porta de quem está esperando sentado.

Picasso, o pintor espanhol, resumiu: “a inspiração existe, mas se depender de mim, me encontrará trabalhando”. Corroborando, o pai da psicanálise Sigmund Freud olhava para o processo criativo como um fluxo, algo que não existe na “centelha”, como uma ruptura mágica, mas sim na continuidade.

Isso acontece todo dia. A oportunidade não chega como um evento isolado, ela se acopla ao que já está acontecendo. À primeira vista, nada parece decisivo, mas, somado, define tudo, porque cada escolha abre um caminho e, ao mesmo tempo, fecha vários outros.

Existe uma narrativa confortável de que crescer é sobre fazer as escolhas certas, quando, na prática, crescer é, muitas vezes, sobre aceitar decisões imperfeitas. Não por falta de planejamento, mas por leitura de mundo.Na era da convergência, tecnologia, repertório, experiência e tempo se misturam, se atravessam, se tensionam a todo momento. Não existe mais caminho ideal, existe movimento. Talvez seja por isso que o futuro deixou de ser previsível, definido por tendências, e tenha se tornado construído.

No fim das contas, carreira não é sobre grandes viradas, é sobre aquele monte de decisão invisível que você toma quando ninguém está olhando. E, principalmente, sobre as chances que você decide não sabotar antes da hora, já que toda vez que você evita o risco, você também evita o extraordinário. Em um mundo onde tudo converge, quem sabe a maior diferença não esteja em quem sabe mais?

Qual a convergência que você tem enxergado em sua realidade de carreira? Quando a oportunidade passar – porque ela passa –, ela vai te encontrar onde? Trabalhando, tentando, errando… ou tomando coragem para depois? É isso que vai garantir a centelha do sucesso que, no fundo, é a convergência que faz sentido para a sua tendência de vida.

Por Revista Plano B
Fonte Exame
Foto: mirsad sarajlic/Getty Images

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