Passageiros que precisam utilizar os trens da Companhia do Metropolitano do Distrito Federal (Metrô-DF) todos os dias têm enfrentado dificuldades. Especialistas e parlamentares apontam que a falta de investimento, em diversas vertentes, tem levado o sistema metroviário ao sucateamento.
Na semana passada, por exemplo, o descarrilamento de um dos vagões causou o fechamento de praticamente todas as estações localizadas na Asa Sul. A velocidade das locomotivas ficou reduzida entre as estações 110 e 112 Sul durante, pelo menos, dois dias.
Mas esse não é um caso isolado. O Metrópoles já noticiou diversas situações em que a população precisou ter paciência no Metrô-DF, seja na ida ao trabalho, ou na volta para casa.
Na quinta-feira (30/7), Arthur Fellipe Martins, 9 anos, que tem paralisia cerebral e usa cadeira de rodas, caiu na escada rolante da estação Ceilândia Sul, após ter que utilizar o equipamento pelo fato de que os elevadores do local estavam inoperantes. O acidente fez com que o menino fosse parar na UTI do Hospital de Base.
Em maio, uma falha em um dos trens da companhia fez com que a estação Arniqueiras, em Águas Claras, ficasse lotada na manhã do dia 22 e que o veículo fosse levado para manutenção.
Cerca de um mês antes, a mesma situação, só que desta vez em Ceilândia. Uma das locomotivas do Metrô-DF apresentou uma falha, causando lotação na estação Ceilândia Centro. O trem também foi recolhido para manutenção.
Ainda em abril, novamente na estação Arniqueiras, outro veículo apresentou problemas, gerando transtornos e o recolhimento do trem para manutenção. O local ficou lotado, pois todos os passageiros precisaram desembarcar.
Em 2024, dois casos graves — ocorridos em janeiro e julho — chamaram a atenção. Vagões da companhia pegaram fogo e ficaram destruídos. Nas duas situações, os trens estavam vazios e ninguém se feriu.
O Metrô-DF disse, em nota, que foram realizadas, desde 2019, obras de modernização dos sistemas de energia. Também informou que foram contratadas as obras de modernização do sistema de alimentação elétrica, além de reformas em diversas estações. (veja detalhes em Expansão e modernização).
O Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF) informou ao Metrópoles que acompanha os contratos de manutenção do Metrô-DF. Após a realização de uma auditoria, o órgão determinou ao Metrô-DF que adotasse as medidas necessárias para aperfeiçoar os planos de manutenção dos trens e elaborar um planejamento para a renovação contínua da frota. O prazo é de até 180 dias para a implementação.
Investimento bilionário
Segundo a companhia, de 2023 a julho deste ano, foram investidos mais de R$ 1 bilhão no Metrô, sendo que pouco mais de R$ 600 milhões foram destinados à segurança metroviária, que consiste na manutenção de trens, trilhos, etc.
Outro dado que chama a atenção é que, de acordo com o Metrô-DF, a quantidade de incidentes notáveis (ocorrências que impactam o funcionamento do sistema por mais de 15 minutos nos horários de pico ou por 20 minutos fora dele) aumentou de 2024 para o ano passado: de 71 para 76.
Mas o que pode explicar o possível sucateamento do sistema metroviário do Distrito Federal, mesmo com um investimento bilionário? De acordo com o secretário executivo do Movimento Nacional pelo Direito ao Transporte (Instituto MDT), Wesley Ferro Nogueira, os problemas potenciais da companhia são enredos de uma crônica já anunciada.
“Não se vê nada efetivo para mitigar e requalificar o atual sistema, apenas a insistência em novos projetos de expansão da rede, mesmo que o modal não tenha nenhuma capacidade para o atendimento de novas demandas, sob as condições atuais”, pontuou.
O especialista ressaltou que, ao longo dos anos, a população cresceu, mas o nível de investimento no sistema de trilhos caiu. “O serviço vem se degradando, com a redução da frota operante nos picos, aumento do intervalo entre os trens e ampliação dos casos de incidentes que afetam diretamente a operação”, lamentou.
O secretário do Instituto MDT ressaltou que o descarrilamento recente mostra que há um risco real de que ocorra uma situação que possa gerar problemas sérios para os usuários do sistema.
“Esse tipo de problema acaba sendo relativizado e isso pode ser uma ‘sentença de morte’ para o sistema de transporte metroviário, pois estimula os atuais usuários para uma migração indesejada em direção ao transporte individual motorizado”, avaliou.
Falta de prioridade
A reportagem também conversou com o presidente da Comissão Transporte e Mobilidade Urbana da Câmara Legislativa (CTMU/CLDF), deputado Max Maciel (PSol). Ele afirmou que o Metrô-DF é vítima de um processo contínuo de sucateamento.
“A situação vivida na semana passada é resultado de anos de falta de prioridade e de investimentos. As vistorias realizadas pela comissão mostram uma frota envelhecida, redução do número de trens disponíveis, equipes de manutenção sobrecarregadas e um sistema que, diante da dificuldade para obter peças de reposição, passou a depender da canibalização de composições para continuar funcionando”, destacou.
Segundo o distrital, os primeiros sinais do que ele classificou como “abandono” apareceram muito antes do descarrilamento. “Eles estavam nas plataformas lotadas, na redução da frota em circulação, nos passageiros cada vez mais espremidos dentro dos vagões, no incêndio em um dos vagões e nas inúmeras interrupções do sistema”, observou.
Futuro reescrito
O especialista Wesley Ferro afirmou que é fundamental o investimento permanente na manutenção e qualificação da frota atual e dos sistemas de sinalização, controle, informação e comunicação. “É preciso investir na ampliação da força de trabalho, com a realização de novos concursos para as carreiras da empresa, além do processo de capacitação contínua”, comentou.
Além disso, de acordo com o secretário executivo do Instituto MDT, também se faz necessário o investimento na implantação/ampliação de áreas de estacionamento junto às estações do metrô.
Para Max Maciel, o futuro do Metrô ainda pode ser reescrito. “Isso exige coragem para abandonar a política do improviso e transformar o transporte público em uma verdadeira prioridade”, avaliou.
O deputado afirmou que é preciso modernizar o sistema de energia para ampliar a capacidade operacional da rede, reduzir a dependência de equipamentos obsoletos e permitir que novas composições circulem com segurança.
“A recuperação do atual sistema metroviário passa por um aporte mínimo de R$ 1 bilhão. Esse recurso seria destinado à contratação de 300 profissionais, à aquisição de novos trens e à construção de uma central de energia, sem que isso contemple a expansão da malha ferroviária, tratando-se apenas da manutenção e modernização do que já existe”, calculou.
Expansão e modernização
Em nota enviada ao Metrópoles, a companhia afirmou que foram realizadas, desde 2019, obras de modernização dos sistemas de energia e contratados serviços modernização do sistema de alimentação elétrica do Metrô.
O Metrô-DF também destacou, entre as medidas tomadas para melhorar a experiência dos usuários, as expansões tanto do trecho de Ceilândia (duas novas estações partindo do Terminal Ceilândia), quanto de Samambaia (duas novas estações partindo do Terminal Samambaia).
A companhia afirmou ainda que, até setembro, será concluída a modernização do sistema de energia da Linha 1, com investimento em torno de R$ 50 milhões, com atuação nos equipamentos das 16 subestações retificadoras distribuídas ao longo do sistema metroviário, na subestação de manutenção e no Centro de Controle Operacional e a instalação do Painel de Entrada de Energia da Hípica.
Fonte Metrópoles
Foto: Rafaela Felicciano/Metrópoles








