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Margem estreita para erro: o que o mercado busca na contratação de Executivos de Finanças

Em um ambiente macroeconômico marcado por incertezas, custos de capital mais elevados e...

Em um ambiente macroeconômico marcado por incertezas, custos de capital mais elevados e maior escrutínio sobre resultados, a cautela ganha protagonismo nas decisões corporativas quando o tema é contratação.

Especialmente para executivos da área de Finanças, o espaço para erro tornou‑se mais estreito, o que se reflete de forma clara nos processos de recrutamento destas lideranças.

A pressão por eficiência, uma maior aversão a riscos e a necessidade de apresentar resultados em prazos mais curtos têm levado empresas a priorizar executivos com experiências correlatas às suas próprias realidades.

Ao invés de apostar em curvas maiores de aprendizado em troca de pluralidade de carreira, há uma tendência em buscar profissionais que já tenham operado em outras empresas com contextos semelhantes em termos de setor, porte, estrutura acionária, governança e complexidade operacional.

Impacto nas contratações recentes
A última edição do infográfico “Fast Facts: recrutamento e seleção em Finanças” (publicação semestral da Assetz Expert Recruitment que consolida dados e tendências de contratação executiva na área financeira) revela que, no segundo semestre de 2025, as movimentações nos setores que mais contrataram — bens de consumo, serviços, dispositivos médicos e imobiliário — ocorreram majoritariamente entre segmentos iguais ou adjacentes.

No recorte de bens de consumo, 75% dos profissionais contratados vieram do varejo, setor com dinâmica operacional semelhante. Já nas empresas de serviços, 67% das contratações envolveram executivos oriundos do próprio setor.

Do ponto de vista da nacionalidade e do porte das companhias, o movimento se repete: há predominância de contratações dentro de grupos equivalentes (as empresas grandes escolhem executivos de empresas grandes e as brasileiras tendem a preferir executivos oriundos de outras companhias brasileiras), o que reforça a preferência por trajetórias percebidas como “seguras”.

Mobilidade mais seletiva
A busca por perfis mais lineares não elimina a mobilidade profissional, mas a torna mais seletiva. Aumentar as chances de sucesso em uma movimentação passa pela identificação de experiências correlatas ou com intersecções claras.

Neste contexto, o setor em que a companhia atua se torna um dos principais vetores de adaptabilidade, pois apresentam realidades semelhantes. Negócios intensivos em capital — como é o caso de energia, infraestrutura e saneamento — exigem decisões financeiras de longo prazo e rigor na alocação de CAPEX.

Já em bens de consumo, varejo e e‑commerce, a convergência ocorre em torno da alta escala, das margens apertadas e da grande integração entre Finanças e as áreas de vendas, marketing e operações, com foco em eficiência e gestão do capital de giro.

Modelos de receita recorrente, como os encontrados em educação, saúde, tecnologia e telecomunicações, compartilham princípios semelhantes de planejamento financeiro e análise de performance.

De forma transversal, setores de alta intensidade regulatória também criam pontos de conexão relevantes, ao exigir da alta liderança maturidade em compliance, governança e gestão integrada de riscos.

Assim, profissionais com vivências prévias em setores correlatos tendem a enfrentar mais facilidade em compreender o negócio da companhia e sua curva de adaptação tende a ser mais natural, o que acaba gerando resultados mais rápidos à organização.

Por outro lado, ao escolher profissionais com vivências semelhantes à sua realidade, a companhia abre mão da pluralidade da experiência profissional e de todos os seus benefícios, como a diversidade de pensamento e a habilidade de se adaptar a diferentes culturas corporativas e momentos distintos da empresa.

Valorização da trajetória
Para os executivos em busca de uma nova colocação, esse cenário convida a uma reconfiguração na forma de planejar e posicionar sua trajetória ao participar de processos seletivos. Em um mercado que privilegia aderência e histórico de execução, a narrativa profissional tem peso relevante, além do repertório técnico.

Mais do que listar cargos e responsabilidades, torna se essencial ao profissional evidenciar profundidade de atuação, domínio do modelo de negócio, consistência de resultados, projetos que liderou específicos do setor e da estrutura acionária da empresa, alinhamento cultural e familiaridade com os desafios do ambiente em que a companhia está inserida.

O domínio de competências emergentes, como o uso de ferramentas tecnológicas em processos da área financeira, também funciona como diferencial relevante do candidato.

Além da vivência prévia em si, é fundamental que o candidato compreenda de fato os desafios da companhia que está contratando, elenque as suas experiências que se aproximam desta realidade e que podem contribuir para a organização, e transmita isso durante o processo seletivo de forma objetiva e consistente, passando segurança ao recrutador.

Equilíbrio necessário
A preferência por experiências comparáveis deve ser compreendida como uma resposta conjuntural a um ambiente de maior incerteza e não como um modelo definitivo de gestão de talentos.

Para as organizações, o desafio está em equilibrar previsibilidade no curto prazo com a construção de pipelines mais diversos e sustentáveis no médio e longo prazo.

Para os profissionais, o momento exige maior intencionalidade: compreender quais elementos da própria trajetória são realmente transferíveis e como traduzi‑los de forma clara para diferentes contextos de negócio.

Em um mercado de baixa margem para erro, profundidade continua sendo uma moeda valiosa. Contudo, saber distinguir quais similaridades importam, e quais podem ser aprendidas, tornou‑se uma das decisões mais estratégicas na agenda de contratações em Finanças.

Foto: Exame

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