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Líderes precisam agir menos como torcedores e mais como técnicos do time

Há mais de vinte anos, Jim Loehr e Tony Schwartz publicaram na Harvard...

Há mais de vinte anos, Jim Loehr e Tony Schwartz publicaram na Harvard Business Review um artigo que até hoje me incomoda, no bom sentido. A tese era simples: se exigimos de executivos um desempenho de alto nível, dia após dia, por décadas, deveríamos tratá-los como atletas. Atletas de verdade. Com treino, preparação, intervalo, recuperação e alguém de olho no desgaste antes que ele vire lesão.

Eles mostraram um contraste que todo líder deveria ter pendurado na parede. O atleta de elite passa a maior parte do tempo se preparando para competir em uma fração dele. Tem pré-temporada, tem férias de verdade, tem uma carreira de poucos anos no auge. O profissional corporativo faz o oposto: compete oito, dez, doze horas por dia, praticamente sem treino, com férias interrompidas por mensagens, e precisa se manter de pé por trinta ou quarenta anos.

Sempre acreditei que as pessoas crescem em ambientes de alta exigência. Não defendo empresas mornas. O problema nunca foi a exigência. O problema é a exigência sem recuperação. E o esporte resolveu essa equação há muito tempo.

O que o esporte já sabe
O primeiro aprendizado é que desempenho é oscilação. Loehr observou que os melhores tenistas do mundo não eram necessariamente os que jogavam melhor os pontos, mas os que usavam melhor os segundos entre um ponto e outro. Ajustavam a respiração, olhavam para as cordas da raquete, repetiam o mesmo ritual. O coração desacelerava. Quando o próximo ponto começava, estavam de novo prontos. Os jogadores medianos ficavam acelerados o tempo todo e quebravam no terceiro set.

O segundo é que carga se mede. Qualquer clube de futebol sério sabe quantos quilômetros cada jogador correu, quantos sprints fez e quanto tempo precisa até estar inteiro de novo. Com base nisso, o técnico decide quem joga, quem treina leve e quem fica no banco. Ninguém escala o time olhando só os gols da última partida.

O terceiro é que o que o atleta sente importa tanto quanto o que os números mostram. Os preparadores físicos perguntam todos os dias como ele dormiu e qual foi o esforço percebido no treino. E cruzam essa resposta com os dados. Porque existe o jogador que diz estar ótimo e o corpo mostra o contrário. E existe o que reclama de cansaço, mas está em plena forma. Só a combinação das duas leituras revela o estado real.

O quarto é a periodização. A temporada tem picos planejados e vales planejados. Depois de uma sequência de jogos decisivos, vem uma semana de carga reduzida. Não é prêmio, é método.

Onde as empresas ainda travam
Quando olho para as organizações que acompanho, vejo os mesmos gargalos se repetindo.

Medimos o placar e medimos o esforço. Sabemos as metas batidas e, às vezes, as horas trabalhadas. Quase nunca sabemos quanto de reserva as pessoas ainda têm. Nas pesquisas de clima, a pergunta sobre estresse aparece entre as piores avaliações em praticamente todas as empresas. Em outro levantamento que conduzo, ouvindo as famílias dos colaboradores, a qualidade do sono é, ano após ano, o item mais mal avaliado. As famílias enxergam o que os relatórios de gestão não mostram.

Celebramos o heroísmo. O gerente que virou a noite para fechar o relatório ganha elogio público. O que planejou bem e não precisou virar a noite passa despercebido.

Punimos os melhores com mais trabalho. O profissional que entrega bem recebe a próxima crise, o próximo projeto, a próxima viagem. No esporte, o craque é o mais protegido do elenco. Nas empresas, é o mais desgastado.

E tratamos o calendário como terra de ninguém. Reunião emendada em reunião, almoço na frente da tela, convite para as 19h porque era o único horário livre de todo mundo. Não há segundos entre os pontos.

O que dá para fazer na segunda-feira
A boa notícia é que nada disso exige grandes programas. Exige gestão. Alguns exemplos que já vi funcionar:

Reuniões de 25 e 50 minutos, não de 30 e 60. E o intervalo é para ser usado: três minutos para anotar a decisão tomada, o próximo passo e o responsável antes de entrar na próxima sala. É o ritual do tenista. Fecha um ponto antes de começar outro.

Blocos de foco protegidos na agenda. Uma manhã por semana, ou dois blocos de 90 minutos, sem reuniões e sem notificações, combinados com o time. Quem precisa pensar, escrever ou analisar ganha o equivalente a um treino técnico.

O líder olhando a carga do time como um preparador físico. Uma vez por mês, vale olhar: quanto da agenda de cada um está em reunião? Quem está recebendo mensagens depois das 21h? Quem fez três viagens no mês? Quem fez a terceira não pega a quarta, mesmo que seja o melhor para a tarefa.

Rodízio de elenco. Plantões, crises, viagens longas e apresentações para a diretoria não podem cair sempre nas mesmas duas pessoas. Distribuir é proteger o craque e desenvolver o reserva.

Periodização depois dos picos. Fechou o trimestre, lançou o produto, encerrou a auditoria? A semana seguinte tem menos reuniões de acompanhamento, sem novos projetos e com prazos mais folgados. Isso precisa estar no planejamento, não depender da boa vontade de alguém.

Acordos claros de comunicação. Mensagem enviada depois das 20h não exige resposta antes das 9h do dia seguinte. Se for urgente de verdade, é ligação. E-mails escritos à noite saem programados para a manhã. Parece pouco, mas muda o que o time entende como esperado.

Conversas individuais que começam pela bateria, não pela pauta. “De zero a dez, como está sua energia esta semana? O que mais consumiu?” E o líder atento ao colaborador que sempre diz estar bem, mas responde mensagens à meia-noite há três semanas. Às vezes o “está tudo ótimo” é exatamente o sinal de alerta.

Respeito à logística do corpo. Não marcar a reunião decisiva na manhã seguinte a um voo noturno. Revezar entre as regiões quem fica com a videoconferência global no horário ruim, em vez de penalizar sempre o mesmo fuso.

De torcedor a técnico
No fundo, a metáfora do atleta corporativo pede uma mudança no papel do líder. Muitos gestores ainda agem como torcedores: cobram o resultado, vibram com a vitória, reclamam da derrota. O técnico faz outra coisa. Ele administra a capacidade do elenco ao longo da temporada inteira, sabendo que o jogo de hoje não pode custar o campeonato.

Nenhum clube aceitaria que seus jogadores entrassem em campo todos os dias, sem intervalo, sem banco e sem pré-temporada. Chamaria isso de má gestão. Está mais do que na hora de as empresas usarem o mesmo nome para o que ainda fazem com seus melhores profissionais.

Fonte exame
Foto: exame

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