Entre 23 e 27 de fevereiro, pesquisadores do Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB) visitaram dois dos maiores expoentes mundiais em saúde e biotecnologia: o The Ohio State University Wexner Medical Center e o Nationwide Children’s Hospital, ambos na cidade de Columbus, nos Estados Unidos.
A iniciativa, viabilizada com financiamento da Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF), integra o plano estratégico do HCB para a implementação de um programa próprio de terapias avançadas (celular e gênica), focado em oferecer tratamentos de alta complexidade de forma sustentável na rede pública. O coordenador do Laboratório de Pesquisa Translacional do HCB, Ricardo Camargo, e a bióloga Bruna Guido participaram de reuniões técnicas, visitas laboratoriais e intercâmbio científico com especialistas que atuam na linha de frente do desenvolvimento dessas terapias.
O encontro foi articulado pelo diretor do Programa de Transplante de Medula Óssea e Terapia Celular do The Ohio State University Wexner Medical Center, Marcos de Lima, cuja colaboração permitiu a troca de experiências com lideranças globais que estão moldando o futuro da terapia celular e genética.
Além das conexões estabelecidas com os centros americanos, os pesquisadores iniciaram diálogos para ampliar parcerias nacionais, incluindo projetos em desenvolvimento com a Universidade de Brasília (UnB) e com outros centros brasileiros que já avançam na implementação dessas terapias.
Da pesquisa à clínica
A visita técnica permitiu aos pesquisadores do HCB compreender, de forma aprofundada, como grandes centros internacionais estruturam programas de terapias avançadas desde a pesquisa básica e a produção laboratorial até a aplicação clínica em pacientes. Os profissionais do hospital tiveram acesso a todas as etapas do fluxo de desenvolvimento dessas terapias, incluindo laboratórios especializados, unidades de transplante de medula óssea, ambientes de produção celular e as chamadas salas limpas, que são instalações com controle rigoroso de partículas e esterilidade necessárias para a manipulação segura de células destinadas ao tratamento médico.
Essa metodologia de aliar pesquisa laboratorial ao atendimento no leito do paciente é conhecida como pesquisa translacional e é um diferencial do atendimento ofertado pelo HCB. O hospital é habilitado pelo Ministério da Saúde como unidade de referência para aplicação da terapia gênica nos pacientes, mas ainda não desenvolve essas terapias avançadas no laboratório do hospital.
Bruna Guido ressalta que a experiência nos Estados Unidos foi essencial para entender outros modelos de gestão hospitalar que integram ciência e assistência em unidades de referência que se dedicam à pesquisa de alto nível: “A visita nos permitiu conhecer em profundidade a estrutura assistencial, regulatória e de manufatura, os modelos de integração entre pesquisa translacional e prática clínica, além dos resultados concretos obtidos por esses programas. Mais do que observar processos, foi uma oportunidade de discutir estratégias, desafios e perspectivas futuras da terapia celular com lideranças que vêm moldando esse campo globalmente”.
Inovação pode transformar o tratamento de doenças graves
As chamadas terapias avançadas, que incluem terapia celular e terapia gênica, representam uma das áreas mais promissoras da medicina contemporânea. Essas tecnologias permitem modificar células do próprio paciente para combater doenças complexas, como determinados tipos de câncer, imunodeficiências e doenças genéticas.
Em terapias celulares, por exemplo, células do sistema imunológico podem ser coletadas do paciente, modificadas em laboratório para reconhecer células doentes e, posteriormente, reimplantadas no organismo para atuar diretamente no combate à doença.
Apesar dos resultados clínicos expressivos observados em diversos países, o acesso, no Brasil, ainda é limitado devido aos altos custos e à complexidade da infraestrutura necessária para produzir essas terapias. Ricardo Camargo defende a necessidade de desenvolver capacidade tecnológica como algo estratégico: “Hoje muitas dessas terapias são produzidas fora do Brasil e enviadas para aplicação clínica. Quando conseguimos desenvolver metodologias e infraestrutura localmente, ampliamos o acesso e reduzimos custos, tornando esse tipo de tratamento mais viável dentro do SUS”, aponta.
Ainda segundo Camargo, estruturar um programa dessa natureza exige planejamento a longo prazo, investimentos em infraestrutura e articulação institucional. “Desde 2022 temos trabalhado no desenho de um programa de terapias avançadas no hospital. Isso faz parte do planejamento estratégico da instituição. Ainda precisamos de estrutura e financiamento para que isso se concretize, mas a visita foi fundamental para entendermos quais caminhos técnicos e regulatórios seguir para uma implementação sustentável”, explica o coordenador.
A adoção de terapias avançadas no Brasil tem potencial para gerar impactos estruturantes no sistema público de saúde. Embora inicialmente mais complexas, essas terapias podem reduzir a necessidade de múltiplos tratamentos prolongados, hospitalizações recorrentes e ciclos repetidos de quimioterapia. Além de melhorar desfechos clínicos, isso pode tornar a jornada do paciente mais curta e com maior qualidade de vida ao longo do tratamento.
“Nosso objetivo é transformar o conhecimento em impacto concreto na vida dos pacientes. Cada visita técnica, cada parceria internacional e cada intercâmbio científico fortalecem a base necessária para ampliar o acesso dos pacientes ao que há de mais avançado em termos de terapias”, destaca Bruna Guido.
A gerente de Pesquisa do HCB, Cristiane Salviano, enfatizou o papel fundamental das parcerias interinstitucionais e do fomento da FAPDF para a viabilização da missão científica internacional. “Vejo nesta visita a oportunidade de estreitar laços entre grupos de pesquisa e pesquisadores seniores, o que promove a troca de conhecimentos, experiências e o desenvolvimento conjunto de tecnologias. Essa interlocução nos permite vivenciar novas soluções, especialmente no campo das terapias avançadas — o futuro no tratamento do câncer e de outras doenças complexas”, afirma a gerente.
Salviano ressalta, ainda, o caráter competitivo e meritocrático da seleção. “A visita foi fomentada por um edital da FAPDF no qual nossos pesquisadores concorreram com pares de outras instituições e foram selecionados pelo mérito de suas trajetórias. O HCB também aportou recursos para a iniciativa, mas o apoio da fundação demonstra uma preocupação estratégica com a internacionalização e valida o perfil de excelência do nosso corpo científico”, explica.
Para a gerente, o sucesso na captação de recursos reflete o alto nível de formação das equipes do hospital: “A aprovação nesses editais, tanto para visitas técnicas quanto para projetos de pesquisa, confirma que temos profissionais com currículos sólidos e competitividade para buscar fomento externo, fortalecendo a inovação dentro da nossa unidade”.
*Com informações do HCB
Por Revista Plano B
Fonte Agência Brasília
Foto: Divulgação/HCB









