Você construiu uma trajetória consistente na área de segurança pública. Como começou esse caminho e o que ele representa hoje? Minha trajetória começou antes da Secretaria de Segurança Pública do DF. Ingressei na carreira de Delegado de Polícia na Polícia Civil do Distrito Federal. Nela atuei inicialmente em diferentes delegacias de Ceilândia, uma experiência na ponta que me deu uma visão concreta da realidade cotidiana da segurança pública e das demandas da população. No âmbito da gestão da própria PCDF, atuei na Corregedoria-Geral, como assessor especial, onde tratava de assuntos diversos e estratégicos da instituição, e não apenas de atividades de natureza disciplinar. Pude contribuir na criação da Divisão de Controle Interno e ser o primeiro diretor. Minha última função na Polícia Civil, antes da Secretaria de Segurança Pública, foi de Assessor Institucional da Direção-Geral, onde ampliei ainda mais minha atuação com foco na articulação parlamentar, em relações institucionais e parceiras de impacto para a PCDF.
Como se deu sua trajetória dentro da Secretaria de Segurança Pública do DF?
No início de 2019 tive os primeiros convites para a Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal. Aceitei quando me identifiquei com o projeto e verifiquei que eu poderia contribuir de forma efetiva, como de fato ocorreu. Então iniciei na SSPDF em setembro de 2019, como Chefe da Assessoria Jurídico-Legislativa, em um momento de forte demanda normativa, com a aprovação de legislações especiais importantes, como a lei anticrime, a nova lei de abuso de autoridade e a reforma da previdência, que afetou os servidores da segurança pública. Em março de 2020, assumi, transitoriamente, a Assessoria Especial do Secretário. Dois meses depois, passei a exercer a função de Chefe de Gabinete, na qual permaneci por aproximadamente 5 anos, passando por três gestões de secretários de segurança pública diferentes. Em maio de 2025, recebi a missão de comandar uma nova secretaria executiva, para cuidar mais especificamente dos programas e projetos de segurança pública. Assumi a função de Secretário Executivo Institucional e de Políticas de Segurança Pública, no qual permaneci até outubro de 2025, após concluir toda a parte de organização e funcionamento da nova estrutura. De outubro de 2025 em diante estou como Secretário Executivo de Gestão Integrada, com a missão de concretizar alguns projetos estratégicos, como a estruturação da primeira Unidade Integrada de Segurança Pública, a conclusão do novo edifício sede da SSPDF e a integração de sistemas e bases de dados das forças de segurança pública, a fim de sustentar um novo projeto de modernização do sistema de monitoramento de segurança pública. Depois de todo esse período, um dos principais aprendizados foi a importância do trabalho conjunto e da parceira com as corporações e demais gestores do governo. A convivência diária com a Polícia Militar, a Polícia Civil, o Corpo de Bombeiros, o Detran, a Polícia Penal e áreas transversais do governo reforçou a compreensão de que segurança pública não se faz de forma sozinho, mas com confiança mútua e visão sistêmica.
Você também atuou na gestão do Gabinete da Intervenção Federal na segurança do DF. Que aprendizados esse período deixou?
A Intervenção Federal foi um dos períodos mais intensos da minha vida profissional. Meu histórico fez com que ficasse incumbido da gestão do Gabinete da Intervenção, em um ambiente de alta pressão e grande exposição, que exigiu articulação permanente com o Gabinete da Governadoria em exercício, as forças locais, os órgãos federais e o sistema de justiça. Foi uma experiência que deixou muito claro que, em cenários críticos, a atuação técnica e o compromisso institucional garantem o funcionamento do Estado. Foi também nesse contexto que conheci nosso Secretário de Segurança, Dr. Sandro Avelar. A convivência profissional naquele período permitiu construir uma relação de confiança que se revelou num verdadeiro entrosamento na forma de pensar a gestão e construir projetos que se revertem positivamente para a sociedade. Penso que esse alinhamento técnico e institucional foi determinante para que eu permanecesse contribuindo na Secretaria.
Sua atuação extrapola o Distrito Federal. Como outras experiências influenciaram sua visão sobre segurança pública?
Atuei por cinco gestões como Secretário Executivo do Conselho Nacional de Secretários de Segurança Pública (CONSESP). Isso ampliou minha visão sobre os desafios federativos na segurança pública. Tive a oportunidade de conhecer a realidade nacional e dos Estados na matéria, além de criar uma relação com profissionais de todo o Brasil, o que me permitiu colaborar com a construção das pautas importantes. Essa vivência reforçou a compreensão de que os principais problemas da área não se resolvem de forma isolada, mas com cooperação federativa, respeito às diversidades regionais e à autonomia dos entes federativos, tanto no aspecto de repartição de competências como de financiamento do sistema. Também atuo como membro titular do Conselho de Políticas sobre Drogas, e representante do Distrito Federal na Comissão Interfederativa Permanente do Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (Conad).
Você passou por uma situação muito difícil em 2025, durante missão oficial a Israel, como foi essa experiência?
Esse foi um dos maiores desafios da minha trajetória profissional e pessoal, durante uma missão oficial internacional a Israel. A visita teve como objetivo conhecer ecossistemas avançados de inovação em diversas áreas de governo, por isso a comitiva era formada por secretários de Estado e governadores de vários Estados. No fim da missão, prestas a voltar ao Brasil, houve a eclosão da guerra, o que transformou completamente o contexto da missão, exigindo equilíbrio, responsabilidade institucional e tomada de decisão sob forte pressão. Apesar da complexidade do cenário, a experiência foi extremamente relevante e contribuiu diretamente para conceber ideias para novos projetos para área de segurança pública do DF.
Enquanto delegado de polícia do Distrito Federal, um tema central durante todo o tempo em que esteve na gestão da SSPDF é a questão da valorização dos profissionais de segurança. Como esse processo foi conduzido?
Nossas forças de segurança pública do Distrito Federal são certamente as melhores e mais bem estruturadas do país. Tínhamos também o histórico de serem as mais bem remuneradas, algo que se perdeu com o tempo. Ao lado disso, promover o consenso entre instituições com regimes jurídicos muito distintos e culturas organizacionais igualmente diferentes não é algo simples. Nesse cenário, fiquei encarregado de coordenar, enquanto Secretaria de Segurança, a equipe técnica de representantes da Polícia Civil, da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros Militar, nos dois processos de reajustes concedidos às forças de segurança pública do DF nesta gestão. Estive presente nas mesas de negociações e em todas as etapas do processo. Felizmente, o resultado foram avanços significativos em termos de valorização e recomposição das perdas salariais, além da construção de uma relação de confiança e respeito entre todos. No fim, ficou a certeza de que não se tratou apenas de uma negociação remuneratória, mas de um verdadeiro resgate dos profissionais que protegem nossa população. Esse resultado foi graças à confiança e à iniciativa do Governador e do nosso Secretário, e que contou com o apoio dos parlamentares que representam nossa segurança pública e dos dirigentes de todas as corporações.
Quais entregas estruturantes da segurança pública no DF você destacaria?
Dos projetos que tive a oportunidade de participar diretamente, posso citar a contribuição elaboração do plano de governo da atual gestão (2023–2026), no tema da segurança pública. Foi a oportunidade para propor novos projetos, como a criação da primeira Unidade Integrada de Segurança Pública (UISP), a qual foi efetivamente implementada e entregue em dezembro de 2025, sob o comando do nosso Secretário Sandro Avelar. Também participei da concepção e elaboração do Programa DF Mais Seguro, o qual, posteriormente, veio a ser substituído pelo atual Programa Segurança Integral. Antes disso, puder atuar na coordenação da transição do sistema prisional da SSPDF para a Secretaria de Administração Penitenciária, contribuindo para reorganizar um setor sensível para a política de segurança. Além disso, atuei na regulamentação da Lei de Recompensas, criando instrumentos modernos de incentivo à investigação, e na elaboração do Decreto nº 42.831, de 2021, que definiu diretrizes para integração dos sistemas das forças de segurança pública, e que hoje serve de base para a construção do novo projeto de segurança pública inteligente. Destaco, ainda, algumas iniciativas voltadas à proteção de grupos vulneráveis, como o Viva Flor Administrativo. Foi uma inovação nacional, em que a concessão de um dispositivo de monitoramento para proteção da mulher vítima de violência doméstica passou a ser realizada no primeiro atendimento, na própria delegacia de polícia, não necessitando aguardar até a análise e decisão judicial.
Vivemos um momento de transição política no DF. Como você enxerga esse período?
Hoje, a segurança pública é o tema mais relevante para a população. Pesquisas demonstram que o cidadão está com medo, ainda que tenhamos indicadores positivos em diversas áreas. Esta gestão alcançou resultados históricos em redução de homicídios e crimes contra o patrimônio. Em 2024, por exemplo, tivemos a menor taxa de homicídios da história da capital. Nesse cenário, é preciso compreender que as mudanças de gestões são naturais e fazem parte da democracia. Porém, não podemos perder de vista que as transições devem preservar os avanços institucionais alcançados, corrigir rumos quando necessário e projetar o futuro. O foco agora é seguir contribuindo para que a próxima gestão tenha bases sólidas para avançar na política de segurança pública.
Olhando para a próxima gestão, qual projeto você considera mais relevante para o futuro da segurança pública do DF?
Acredito que o eixo mais transformador para o futuro próximo é a consolidação de um projeto de segurança pública inteligente, dentro do conceito de cidades inteligentes, baseado em monitoramento e uso de inteligência artificial, integração de bases de dados e análise preditiva para antecipar riscos e orientar decisões. Essa é uma diretriz estratégica já sinalizada pelo nosso Secretário, pelo Governador e pela Vice-Governadora. A proposta é aperfeiçoar a gestão para um modelo preventivo, orientado por dados, tecnologia e governança. Algumas experiências nacionais e internacionais me ajudaram a amadurecer essa visão. Evidentemente, o desafio e a expectativa é ter condições de construir uma solução própria, adaptada à realidade institucional, jurídica e social do Distrito Federal.
Como você se define hoje, fora da lógica do cargo?
Como um delegado de polícia que veio da ponta, passou pela gestão institucional e hoje atua na formulação estratégica de políticas públicas, acredito na força das instituições e na importância de transformar boas ideias em ações concretas. Mais do que títulos e cargos, acredito no reconhecimento advindo dos resultados e de como isso impacta positivamente na nossa sociedade.
Por Marissol Fontana – Colunista Social do Portal Plano B







