A cada dia, o Brasil registra 965 denúncias de violações de direitos de crianças e adolescentes. Nos primeiros quatro meses de 2026, a violência infantojuvenil teve 115.814 registros no país, segundo o mais recente levantamento do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, publicado em junho.
A maioria das vítimas é do sexo feminino, e o ambiente doméstico é o local mais frequente dos abusos. A faixa etária mais afetada vai de 4 a 8 anos de idade, mas especialistas afirmam ser possível haver mais casos nas outras faixas etárias.
Para o advogado penal Juarez da silva, os dados mostram que o desafio brasileiro não é a ausência de legislação, mas a efetividade das políticas públicas, da prevenção e da atuação integrada das instituições responsáveis pela proteção da infância.
“O principal gargalo não está na criação de novas leis ou no aumento de penas. A Constituição Federal, especialmente em seu artigo 227, e o Estatuto da Criança e do Adolescente oferecem instrumentos jurídicos robustos para a proteção infantojuvenil. A maior deficiência está na efetivação dessas garantias constitucionais”, disse.
Ontem, a Polícia Civil confirmou, durante a madrugada, a morte de um menino de 3 anos que teria sido espancado pelo próprio pai em Viamão, na Região Metropolitana de Porto Alegre. A criança foi identificada como Oliver Golden Grayson.
O pai, Dandre Jermaine Grayson, um missionário norte-americano de 33 anos, confessou o crime e está preso preventivamente desde o último domingo (5/7). Em depoimento, ele afirmou que a motivação para as agressões foi o filho não ter lhe dado “bom dia”.
De acordo com a delegada Luana Tamiozzo Medeiros, responsável pela investigação, o homem relatou ter desferido diversos golpes no peito, no abdômen e na cabeça da criança.
O menino estava internado em estado gravíssimo na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) pediátrica do Hospital de Pronto Socorro (HPS) de Porto Alegre e morreu na noite de anteontem. O próprio agressor levou o menino até o hospital.
Ao constatar as múltiplas lesões, a equipe médica acionou o 18º Batalhão de Polícia Militar (BPM). O norte-americano foi preso em flagrante no hospital. Na segunda-feira (6/7), durante a custódia, a Justiça converteu o flagrante em prisão preventiva.
Segundo a Polícia Civil, há registros de mais agressões contra outros filhos do casal. Por determinação do Conselho Tutelar, eles foram encaminhados para acolhimento institucional. Além dos maus-tratos contra as crianças, a investigação apura possíveis episódios de violência doméstica contra a esposa do missionário. A polícia solicitou medida protetiva para a mulher.
Segundo as autoridades, a família vive no Brasil há nove anos e havia se mudado para Viamão há cerca de seis meses.
Pai é preso
Outro caso registrado no Sul também choca pela violência. No último dia 5, uma câmera de segurança flagrou um pai chutando o rosto da filha, de três anos, na cidade de Francisco Beltrão, no Paraná. O homem aparece no vídeo acompanhado da menina e de outro filho, de 5 anos. Eles carregam sacolas. Durante a caminhada, ele se vira e atinge a filha com o chute. Ela cai sentada no chão. Segundos depois, outro homem aparece tentando intervir, mas é confrontado pelo pai da criança.
A mãe da menina procurou a Polícia Civil e registrou um boletim de ocorrência depois de assistir às imagens da violência que passaram a circular nas redes sociais. O pai foi preso ontem.
Segundo o delegado Anderson Andrei, a Polícia Civil instaurou um inquérito para apurar o episódio e o investigado responderá pelo crime de lesão corporal. “A vítima foi identificada, bem como a genitora. Os familiares já foram ouvidos, em primeiro momento. A maior preocupação da Polícia Civil foi com o bem-estar da criança e garantir a segurança dela”, disse
Além da investigação, a corporação solicitou medidas protetivas de urgência em favor da menina, do irmão e da mãe. O Conselho Tutelar também foi acionado para acompanhar a situação.
Violência sexual
Segundo a psicóloga clínica e neuropsicóloga Juliana Gebrim, as ações para impedir a fatalidade infanto juvenil ocorrem, muitas vezes, depois que a violência já se instalou. “Precisamos investir muito mais em ações precoces. Isso significa fortalecer as famílias em situação de vulnerabilidade; ampliar o acesso à saúde mental; garantir uma escola capaz de identificar sinais de risco; integrar melhor os serviços de assistência social, saúde, educação e segurança pública”, afirma.
Para Gebrim, outro ponto importante é compreender que a violência não surge de forma isolada. Ela costuma estar associada a fatores como desigualdade social, negligência, abuso, evasão escolar, exposição ao crime organizado e ausência de oportunidades.
“Quando olhamos apenas para o episódio de violência, e não para os fatores que o antecedem, perdemos a oportunidade de interromper esse ciclo”, frisa.
Segundo o Atlas da Violência 2026, a violência não letal — incluindo negligência, física, psicológica e sexual — cresceu de um modo geral, ainda que com oscilações em alguns períodos. A violência psicológica e a negligência aparecem com volumes elevados e crescimento consistente. A violência física apresenta variações mais acentuadas, incluindo quedas temporárias seguidas de recuperação. A negligência, por sua vez, atinge fortemente crianças mais novas, indicando a centralidade do ambiente doméstico.
A violência sexual apresenta um padrão alarmante, com crescimento em todas as faixas etárias. “Um dos achados mais críticos refere-se ao aumento expressivo da violência sexual na primeira infância, entre crianças de 0 a 4 anos, os registros passaram de 1.671, em 2014, para 7.845, em 2024, o que representa um crescimento superior a quatro vezes”, informa o relatório do Atlas da Violência de 2026.
Fonte Correio Braziliense
Foto: Arquivo Pessoal








