terça-feira, 16 de abril de 2024
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Bancada evangélica racha com receio de proximidade a Lula

A troca de guarda com o atual líder, Eli Borges, tem despertado na coxia receio de que a futura gestão será cordial demais com o governo Lula

A bancada evangélica está sob nova direção e antigo dilema. O deputado Silas Câmara (Republicanos-AM) assumirá sua presidência na volta do recesso parlamentar. A troca de guarda com o atual líder, Eli Borges (PL-TO), tem despertado na coxia receio de que a futura gestão será cordial demais com o governo Lula (PT) para o brio bolsonarista de alguns membros da frente.

O racha interno emergiu após um assessor do bloco enviar mensagem a jornalistas dizendo que os parlamentares evangélicos oficializaram um acordo para Borges e Câmara se revezarem no comando até o fim de 2024, alternando seis meses de mandato para cada um.

A ressalva é o que chamou atenção: “No entanto, a bancada não se sente confortável com a nova presidência e [em] como o dep. Silas está acenando ao governo”.

Os dois deputados travaram em fevereiro uma disputa acalorada pelo posto, com acusações de fraude e ameaças de judicialização. Conseguiram pacificar o pleito após selar o arranjo de que Borges presidiria a bancada no primeiro semestre de 2023, e Câmara no segundo, repetindo o acerto no ano seguinte.

Borges é do partido de Jair Bolsonaro, a quem o grupo religioso se alinhou em peso na eleição. A expectativa é a de que a nova liderança diminua as fricções com a administração petista, à óbvia exceção da agenda de costumes.

Silas Câmara é descrito por pares como raposa velha no Congresso, mais afeito ao modo centrão de atuar. Ou seja, disposto a adotar postura conciliatória com o governo que for. Ele pertence à família Câmara, farol evangélico no Norte do país. Seu irmão Samuel é pastor da primeira Assembleia de Deus brasileira, chamada de Igreja Mãe.

No sétimo mandato, ele já chefiou a bancada, entre 2019 e 2020, os dois primeiros anos de Bolsonaro no poder. Foram tempos de glória para a frente, que experimentou inédita proximidade com o Palácio do Planalto, que incluía orações com o presidente e o bloqueio de pautas contrárias ao seu interesse. O ápice foi a nomeação do pastor presbiteriano André Mendonça para o STF (Supremo Tribunal Federal), com lobby dos evangélicos.

À Folha de S.Paulo Câmara diz que a relação da FPE (Frente Parlamentar Evangélica) com o governo será “republicana, respeitosa e de diálogo com todos”, mas “intransigente nos temas para os quais [a bancada] existe”. Não haveria negociação, por exemplo, para flexibilizar o aborto no Brasil.

Sua prioridade seria, portanto, “fortalecer nossa posição em tudo o que a FPE já faz em defesa dos princípios que norteiam nossa fé”.

Outro ex-presidente do grupo e aliado de Câmara, Cezinha de Madureira (PSD-SP) engrossa a ala dos que não veem sentido em bater de frente com o Planalto só para marcar território como oposição.

Ele lembra de uma passagem do livro bíblico de Romanos, sobre toda autoridade ser constituída por Deus, muito evocada no segmento para defender uma relação afável com governantes. “Deputado que estiver preocupado com uma aproximação seja com qual for o governo”, diz, faz “oposição desinteligente”.

“O público evangélico elege [representantes] para proteger suas ideologias. Não tem que estar preocupado se o governo é vermelho, amarelo, azul. Não importa. O papel do parlamentar é ter diálogo.”
Cezinha é ligado à Assembleia de Deus Madureira, uma das primeiras igrejas de grande porte a se mostrar aberta a restabelecer pontes com Lula após quatro anos de relação intensa com o bolsonarismo.

Ele já subiu na garupa de Bolsonaro, numa das motociatas que o então presidente em busca da reeleição empreendeu na campanha. Chegou a dizer, após o triunfo petista: “Todos sabem que Lula foi eleito aí com uma pauta bem difícil com os evangélicos”.

Mas agora são outros tempos. Cezinha recorda que estava, inclusive, ao lado de Jorge Messias, um diácono da Igreja Batista, quando o advogado-geral da União foi vaiado no palco da Marcha para Jesus. Aconteceu quando anunciou falar em nome de Lula.

O deputado afirma não ver ameaça à agenda cristã no horizonte. “O que existe é um governo que está querendo demonstrar que nos respeita. Apoiei Bolsonaro, mas tenho o dever de, no meio dessa guerra desinteligente toda, tentar manter a paz.”

Assim como ele, a maioria da bancada, que soma em torno de um quinto dos 513 deputados federais, teria responsabilidade com suas igrejas. O resto, diz sem dar nomes, são “deputados de lacração”.

Os mais propensos a conversar articularam em dois capítulos nevrálgicos deste começo do governo Lula. Primeiro no PL das Fake News, quando o projeto de lei ainda não estava paralisado no Congresso.

Deputados religiosos enxergavam o texto como danoso à liberdade religiosa. Esse grupo atuou para remover trechos que poderiam ser mal interpretados por evangélicos, e o PL ganhou nova versão citando “livre exercício da expressão e dos cultos religiosos” e “exposição plena dos seus dogmas e livros sagrados”. Outro quinhão do parlamentarismo evangélico permaneceu inflexível na oposição à proposta.

Dias atrás, uma nova redação da Reforma Tributária ampliou a imunidade para templos. A manobra frustrou uma fatia mais ideológica da bancada, ligada a Bolsonaro, que lutava para enterrar o projeto legislativo por considerá-lo um êxito governista.

As críticas a Silas Câmara são restritas aos bastidores. Não há interesse em expor publicamente as fissuras, embora elas existam.

Eli Borges diz acreditar que seu sucessor “vai fazer um trabalho”. Câmara tem “mais abertura com o governo” sem abdicar da “postura cristã nas pautas nossas”, afirma.

Ex-líder da bancada, Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) o define como um colega “muito experiente” e se diz convicto de que ele defenderá “os interesses dos parlamentares evangélicos, e não do governo”.

Roberto Monteiro (PL-RJ) chegou a ter um entrevero com Câmara numa reunião recente da bancada, ameaçando sair do grupo e só voltar quando Eli Borges retomasse a presidência. As divergências ficaram para trás, segundo o deputado, que é pai do ex-vereador carioca Gabriel Monteiro, preso e cassado após acusações de estupro.

“Fiz minha parte sendo Bolsonaro. Agora terminou Bolsonaro, a história é outra, o país não pode parar”, afirma. “Não sou da ala radical, sou da ala do diálogo, porque o próprio Cristo não faz acepção, [diz] venham a mim todos, não apenas alguns.”

Por Redação do Jornal de Brasília

Foto: Reprodução Jornal de Brasília

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