A vitória de virada de Luiz Inácio Lula da Silva deixou uma ressaca que ultrapassa o desconforto dos derrotados. A contestação do resultado por Flávio Bolsonaro, o respaldo de Donald Trump às suspeitas lançadas sobre a votação, o tombo dos ativos brasileiros e uma nova intervenção de Alexandre de Moraes, que cancelou o passaporte do candidato derrotado e proibiu-o de deixar o país, compõem um cenário de instabilidade.
Lula conquistou o quarto mandato, mas recebeu, antes mesmo de encerrar a comemoração, uma advertência sobre as dificuldades de exercê-lo. O primeiro problema é a recusa de Flávio em reconhecer a derrota. O senador anunciou que pedirá a anulação da eleição, questionando a decisão do ministro Cristiano Zanin de ampliar o horário de votação diante de problemas de transporte.
Sua contradição é que a própria campanha bolsonarista também havia solicitado a prorrogação, embora restrita a municípios atingidos pelas chuvas. A discussão sobre o alcance da decisão é legítima; transformá-la em prova de fraude exigiria evidências que o candidato não apresentou. Os números também impõem limites à narrativa.
Lula venceu por, aproximadamente, 4,4 milhões de votos, enquanto menos de 35 mil foram depositados durante a extensão do horário. Há uma tentativa de atribuir à prorrogação a responsabilidade pela virada. As irregularidades têm que ser investigadas, mas isso não invalida a escolha dos eleitores, porque a vantagem de Lula foi muito grande.
Entretanto, a prorrogação do horário de votação é o novo pretexto da conexão entre o bolsonarismo e o secretário de Estado, Marco Rubio, para estressar as relações de Lula com Trump. O Departamento de Estado tinha até preparado um comunicado sobre a eleição, mas sua divulgação foi suspensa depois das alegações de Flávio. A reação do candidato derrotado influenciou as decisões diplomáticas de Washington.
Nessa segunda-feira, Trump acrescentou combustível à crise ao sugerir, sem apresentar provas, que a eleição brasileira parecia “corrupta”. Como referência internacional, a declaração fortalece a resistência de Flávio em admitir o resultado. A afinidade com a família, cultivada desde o governo Bolsonaro, ajuda a compreender essa convergência, embora não permita concluir que tudo foi previamente combinado.
Eduardo Bolsonaro tornou explícito o objetivo de internacionalizar a contestação ao pedir que a comunidade internacional recusasse a vitória de Lula e pressionasse pela anulação. Fora dos EUA e da Argentina. Trump e o presidente argentino, Javier Milei, são exceções na comunidade internacional. Todos os demais países da América do Sul, da União Europeia, do Grupo dos 20 e do Brics reconheceram a reeleição do presidente brasileiro.
Apostas de risco
Outra ressaca ocorreu no mercado financeiro. Parte dos investidores havia organizado suas posições em torno da vitória de Flávio e da expectativa de uma orientação fiscal mais restritiva. Os levantamentos disponíveis na sexta-feira ajudaram a sustentar essa aposta, mas mostravam uma disputa apertada: PoderData/Aya apontava 51% a 49% nos votos válidos; o Datafolha, empate em 50%. Converter vantagem estreita em certeza foi um erro de avaliação de risco.
A correção foi brutal. Nessa segunda-feira, o dólar comercial fechou em alta de 8,21%, a R$ 5,403, depois de alcançar R$ 5,605. O Ibovespa perdeu 14,01%, e a B3 interrompeu temporariamente as negociações pelo mecanismo de circuit breaker. A desmontagem das posições favoráveis à troca de governo se somou à preocupação com as contas públicas. A Bolsa também sofre a ressaca de uma vitória antecipadamente incorporada aos preços.
Isso não dispensa Lula de responder às dúvidas econômicas. A reação dos investidores não revoga votos, mas encarece o crédito, pressiona expectativas e restringe a margem de ação do governo. O Executivo precisa apresentar compromissos convincentes com a trajetória da dívida e a sustentabilidade de suas políticas sociais. A vitória eleitoral não garante a confiança econômica, que dependerá das decisões que Lula tomar.
No terreno institucional, a determinação de Moraes para que Flávio entregue os passaportes e fique impedido de deixar o país acrescenta outra frente de conflito. A medida está relacionada a uma investigação sobre suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo o senador e o advogado Willer Tomaz, que negam as acusações. Flávio classificou a decisão como intimidação. Investigação criminal e controvérsia eleitoral tumultuam o processo, perder uma eleição não justifica restrições judiciais, assim como disputar a Presidência não assegura imunidade à investigação.
A decisão de Moraes no dia seguinte à eleição precisa ter mais fundamentos. Sua repercussão atinge em cheio o Congresso, cuja composição conservadora já representa um obstáculo ao novo mandato. A sobreposição entre a contestação da votação e as medidas contra Flávio oferece à oposição um eixo de mobilização contra o Supremo. Reúne naturezas distintas numa acusação geral de interferência judicial, que agrava o confronto permanente entre Poderes.
Para governar, Lula terá de negociar com o Congresso, onde a oposição ampliou sua força. A ressaca de dessa segunda-feira é uma amostra grátis do que vem por aí. Lula venceu a eleição, mas terá de construir melhores condições para governar. A oposição vai jogar pesado.
Fonte Correio Braziliense
Foto: kleber sales








