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A onda digital da vez: entenda as expressões da moda

Você já ouviu alguém falando que está farmando aura? Ou mexendo os braços...

Você já ouviu alguém falando que está farmando aura? Ou mexendo os braços para cima e para baixo falando as palavras em inglês “six-seven”, traduzindo literalmente para “seis-sete”? Esses dois termos têm dominado as redes sociais e fazem parte de modas da internet, mais conhecidas como “trends”. Esses desafios originados no mundo digital têm a capacidade de atingir um público grande, em especial as crianças e pré-adolescentes, principalmente pelo tempo que passam nos celulares e navegando na internet. Para muitos, vistas como sem sentido, essas expressões podem guardar muitos significados.

“Farmar aura é tudo para mim. Eu gosto bastante dessa brincadeira”, afirmou o estudante do Centro de Ensino Fundamental (CEF) 5 do Gama Davi Lucas, de 12 anos, que foi dominado pela nova onda digital. O primeiro contato que ele teve com o fenômeno da internet foi por meio de redes sociais. “Eu passo muito tempo mexendo no celular, então os vídeos foram aparecendo para mim e eu comecei a brincar disso também na escola”, acrescentou. 

Os termos “farmar aura” e “six-seven” não possuem significados concretos, possuindo variações de acordo com cada publicação nas redes. Davi explicou de uma forma que todos conseguem entender: “Farmar aura significa fazer algo muito legal e que impressione as outras pessoas. É pular de um lugar para outro ou subir em algum lugar”. “Já o six-seven é só fazer subir e descer as mãos enquanto fala six-seven”, acrescentou.

Geração Alfa

A reprodução desse tipo de conteúdo se faz mais presente entre a geração Alfa, dos nascidos entre 2010 a 2024, que é composta pelas primeiras pessoas a nascerem totalmente integradas no mundo digital e nas redes sociais. Segundo dados do Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPEDF), 89,8% das crianças e adolescentes da capital tinham acesso à internet por meio de celulares ou tablets. 

A psicóloga infantil Renata Bessa afirma que esse tipo de modismo sempre existiu. Toda geração de criança e adolescente tem uma fase em que existem piadas internas que só fazem sentido para o grupo e que entram na lógica de nomes curtos e repetitivos. Ela relembra momentos em que músicas do grupo Mamonas Assassinas estavam em alta e influenciavam o vocabulário dos jovens da época. Ela pontua a preocupação no uso de redes sociais pelos mais novos: “Não é a busca por memes que é o problema, e sim, os vídeos curtos e rápidos de algumas plataformas”, explicou.

Apesar da diversão, a especialista alerta que o excesso no tempo de uso do celular pode impactar o desenvolvimento de crianças e adolescentes. A grande quantidade de estímulos proveniente de conteúdos da internet fornecem dopamina barata, o que gera mecanismos de vício no organismo. “O problema fica maior quando a criança ou o adolescente deixa de ver filmes, ler livros ou até séries para ficar apenas em vídeos curtos e de rápidos estímulos”, explica. A partir disso, o cérebro é treinado a receber reforço rápido, diminuindo a capacidade de atenção, concentração e persistência. 

Essa visão também é compartilhada por alguns jovens. Apesar de entrar na brincadeira, Ícaro Gonçalves, 13, concorda que os amigos e outras crianças precisam tomar cuidado com o excesso de telas. “Eu gosto muito de ficar no celular, mas também reservo o meu tempo para ler e brincar fora da internet. Acho que é importante não ficar o dia todo na internet”, pontuou. 

A colega de Ícaro, Ingrid Gabriele, 13, também mostra-se preocupada com o excesso de telas na sua geração. “Apesar de ser legal, acho que ficar o tempo todo mexendo no celular pode causar problemas na visão das pessoas da minha idade. Eu vejo que meus amigos passam muito tempo no celular e acho isso perigoso”, afirmou.  

Ambiente escolar

Assim como seus colegas de classe, Miguel dos Santos, 12, aprendeu a nova brincadeira por meio de vídeos publicados em redes sociais e reproduz os gestos e brincadeiras na escola. “No início do ano, começou a aparecer vídeo para mim no Instagram. Depois, comecei a brincar com os meninos aqui da escola”, contou. Para o estudante, a nova moda é apenas uma boa forma de interação entre os amigos. “Consegui fazer muitos amigos enquanto a gente brincava de farmar aura e six-seven. É legal ter mais essa brincadeira para fazer na escola”, acrescentou.

A diretora do Colégio Sigma de Águas Claras, Aline Brito, explicou que o ambiente escolar se torna um campo propício para a divulgação de memes. “A escola costuma ser um reflexo da cultura em que as crianças e os adolescentes estão inseridos. Em pouco tempo, aquilo que surgiu em um vídeo curto passa a aparecer nas conversas, nas brincadeiras e até na forma como eles se comunicam dentro da escola”, explicou a psicopedagoga. 

Apesar de existir uma distância geracional entre alunos e professoras, Aline afirma que é possível se integrar a esse novo mundo e utilizar os memes em sala de aula. “A escola não precisa ignorar aquilo que faz parte do universo dos estudantes. Muitas vezes, partir de uma referência conhecida ajuda a despertar interesse e aproximar o conteúdo da realidade deles”, disse. 

O professor de matemática do CEF 5 do Gama Fredson Rodrigues, 30, comenta sobre o impacto que os memes tiveram em sua rotina. “As crianças fazem isso toda hora. Não param um segundo”, disse. Apesar do alvoroço, ele conseguiu integrar a tendência para estabelecer uma comunicação melhor com os alunos. “Às vezes, quando a turma está conversando muito, eu falo que eles vão perder aura se continuarem, aí ele fica quieto. Acredito que seja importante estabelecer essa relação com as crianças”, complementou. 

Para Rodrigues, o comportamento das crianças segue um padrão. “Na minha época de criança tinha essas coisas também. Isso que elas estão fazendo é normal. Não acho que seja prejudicial, é só a moda do momento”, concluiu.

*Estagiária sob a supervisão de Patrick Selvatti

Fonte Correio Braziliense
Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press

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