Nem o calor, nem as dificuldades no trânsito afastaram os brasilienses dos cemitérios do Distrito Federal no Dia de Finados, celebrado na última segunda-feira (2/11). Ao longo do dia, famílias foram ao Campo da Esperança, na Asa Sul, para levar flores, acender velas e prestar homenagens a parentes e amigos. Segundo a Secretaria de Estado de Justiça e Cidadania do Distrito Federal (Sejus), mais de 600 mil pessoas passaram pelas seis unidades da cidade nesta segunda-feira, e foram registrados 1.203 atendimentos aos visitantes nas tendas montadas pela pasta.
Mais de 600 mil pessoas visitaram os seis cemitérios públicos do Distrito Federal durante o feriado do Dia de Finados, nesta segunda-feira (2). Para acolher os visitantes em uma data marcada pela saudade e pelas homenagens aos entes queridos, a Secretaria de Justiça e Cidadania (Sejus-DF) instalou tendas de atendimento nas unidades, onde foram registrados 1.203 atendimentos, entre orientações gerais, registros de ouvidoria e apoio psicossocial.
Para muitos, a data é uma oportunidade de recordar os momentos vividos com aqueles que partiram. “É hora de lembrar, agradecer e sorrir. Meu pai era muito alto-astral”, lembrou, emocionado, o advogado César Freire, de 60 anos, no Cemitério da Asa Sul. A esposa, a técnica de enfermagem Luciana Elizabeth Ferreira, 50, contou que a prática ainda é recente. “O pai dele faleceu há dois anos. É uma tradição que ainda está nascendo”, disse.
Apesar da saudade, que se manifesta em lágrimas ao falar do pai, César ressaltou que a visita é uma forma de homenageá-lo. “É a elevação do meu pensamento para ele. Assim, vamos lidando com o ciclo da vida, nos transformando e aprendendo a conviver com a perda”, afirmou.
Para a assistente administrativa Claudiene Silva Martins, 52, e a sobrinha Wemilly Brandão Martins, 25, a visita é um hábito antigo. “Viemos visitar meu irmão, pai da Wemilly. Ela tinha seis meses quando ele morreu. Virou uma tradição só nossa. Meus irmãos não têm o costume de visitar, mas eu e ela estamos aqui todos os anos”, contou.
Além do irmão, Claudiene também visita os túmulos do filho e do pai. “É uma ferida que se abre novamente todos os anos. É difícil vir, mas é muito pior não vir aqui. Venho para prestar homenagem, porque a saudade não tem como matar”, lamentou.
Ana Lídia
Há quem aproveite a ida ao Campo da Esperança para prestar homenagens para além dos familiares e amigos. Com flores, velas e brinquedos, o túmulo da menina Ana Lídia Braga — que foi torturada, asfixiada, estuprada e morta em 11 de setembro de 1973, aos 7 anos de idade —, virou ponto de visitação de muitos no feriado. “Todo dia de Finados eu venho, deixo uma flor e acendo uma vela pra ela”, contou Nilda Ferreira Cruz, 66.
A doméstica é uma das pessoas que se consideram devotas de “santa Ana Lídia” e buscam o túmulo para pedir graças. “Eu venho pedir saúde para os meus filhos, que meu filho realize uma conquista que ele está precisando. Ela faz muitos milagres”, disse.
Francineide Silva de Oliveira, 47, aproveita a visita ao túmulo dos sogros para visitar o de Ana Lídia e a Praça dos Pioneiros, no Cemitério Campo da Esperança. “Venho visitar minha família e aproveito para prestar uma homenagem aos que estão aqui”, contou. Para ela, a área dedicada aos pioneiros que ajudaram na construção de Brasília tem importância para a história da capital. “Eles foram os fundadores, então acho importante um lugar para homenageá-los aqui no cemitério”, afirmou.
Benedita Correia de Souza, 89, e a filha, Deike Gomes de Almeida Correia, 48, também aproveitaram a visita aos familiares para homenagear os fundadores da capital. “Eu acho que devemos agradecer, porque, se a gente vive bem, também é graças a eles”, disse Benedita. Nascida em Brasília, Deike se comoveu ao encontrar ali parte do começo da cidade. “Conheço toda a história. Ver os túmulos aqui é interessante, porque tudo dependeu deles. Achei emocionante conhecer”, afirmou.
Santa Missa
Na celebração especial do Dia de Finados, no Cemitério Campo da Esperança, o bispo Dom Paulo César destacou a esperança na vida eterna como mensagem central da fé cristã. “Estamos aqui no cemitério, mas com o coração cheio de esperança, porque a fé nos dá a certeza de que a morte não é o fim de tudo. A morte é passagem para a vida eterna”, afirmou.
Durante a homilia, Dom Paulo César ressaltou que a fé oferece conforto diante da perda e renova a esperança de reencontro com aqueles que partiram. “Celebremos esse dia da saudade, mas celebremos com a grande esperança que vem da fé, com a certeza de que não é a morte que diz a última palavra, mas sim a ressurreição de Cristo, abrindo a nossa existência à vida eterna e nos ressuscitando no último dia”, declarou.
Gratidão
A celebração do Dia de Finados na Seicho-No-Ie foi marcada pelo sentimento de gratidão aos antepassados e pela crença na continuidade da vida espiritual. “Falamos bastante que a vida é eterna. Na verdade, nossos antepassados estão presentes, sempre nos ajudando. O que fazemos aqui é, justamente, dedicar orações às pessoas que partiram. É um modo de agradecer, porque estamos aqui, hoje, graças a cada antepassado nosso”, afirmou o religioso Manoel Fernandes Lima, 51.
O servidor público Devair Sebastião Nunes, 59, frequenta a Seicho-No-Ie desde 1985. Entre os ensinamentos que mais o atraíram está a compreensão sobre a origem do sofrimento humano e a relação entre Deus e a humanidade. “A vida é eterna. Existe a morte do corpo carnal, do corpo material, mas a vida continua. Hoje é um dia de celebrar aqueles que vieram antes e permitiram que eu estivesse neste mundo. É um dia de agradecer aos ancestrais pela minha existência”, declarou.
A aposentada Telma de Almeida, 64 anos, conta que chegou à instituição em busca de harmonia familiar e encontrou nos ensinamentos uma forma de lidar com questões de saúde e dificuldades enfrentadas por parentes. Segundo ela, a prática de reverenciar os antepassados também está relacionada à busca por equilíbrio nas relações familiares. “Eles são iluminados e aquilo que é hereditário também recebe essa luz. É uma questão de buscar harmonia e saúde para a família”, explicou.
Culto às almas
Fundada em 1935, no Japão, a Igreja Messiânica Mundial do Brasil (IMMB) realizou, ontem, o tradicional Culto às Almas dos Antepassados. A cerimônia convida os fiéis para relembrar e ressignificar o luto por entes queridos que partiram. O evento que culmina no dia dos finados faz parte do rito de preparação que acontece durante todo o ano.
O reverendo da igreja, Luis Claúdio da Cunha Ferreira, explica que a religião acredita na eternidade da alma e que o culto é uma homenagem aos antepassados. “Hoje, os messiânicos se reúnem para prestar além de uma homenagem, uma gratidão às suas raízes, às pessoas que vieram antes e que construíram seus valores”, afirmou.
Durante o rito, Flávia Borges, 32 anos, lembrou-se do tio, que faleceu em 2012. “É uma tradição vir aqui no dia dos finados. Sempre penso no meu tio. Ele era uma pessoa muito especial para mim”, afirmou. Ela ainda comenta que a solenidade é saudável tanto para o corpo como para a alma. “É importante para que a gente não fique apenas chorando pela pessoa que partiu, porque acreditamos que vamos encontrá-las em um outro plano”, acrescentou.
Taguatinga
No Cemitério de Taguatinga, o primeiro Dia de Finados sem o pai ainda tem a dor de uma ausência recente. Luzia Aparecida, 59, perdeu o marido há quatro meses e foi ao cemitério com a filha, Gislaine Brandão, 41, e a neta Lívia, 5. “É uma homenagem, porque, querendo ou não, aqui é o lugar onde ficam os nossos entes queridos”, afirmou Gislaine. A família mantém a tradição de visitar o cemitério todos os anos para lembrar outros parentes. “A Lívia vêm desde pequena, ensinamos a ela essa tradição. Dessa vez, explicamos que é pra homenagear e amenizar a saudade do avô”, contou Luzia.
A aposentada Marli Soares, 69, transformou a visita em uma conversa que atravessa a saudade. “Além de deixar flores, fazer essa homenagem, venho bater papo com minha mãe e com minha tia. Venho para falar dos problemas, contar as novidades”, disse. Neste ano, quis dividir com elas a alegria de ter voltado de Aparecida, onde esteve em uma peregrinação religiosa. “Eu estou muito feliz e realizada. Minha mãe era religiosa, tenho certeza de que está muito feliz também”, disse.
Os mortos não morrem
O Templo da Boa Vontade (TBV), pertencente à Legião da Boa Vontade (LBV), organizou uma programação especial para o Dia de Finados, que contou com preces e homenagens aos entes queridos.
A saudade da filha, mesmo depois de mais de cinco décadas, continua levando Otaviana Rodrigues de Almeida, 75, a prestar homenagens no Dia de Finados. Há 53 anos, ela visita o túmulo da filha e, há dez, também lembra do marido, que morreu. Neste ano, depois de passar pelo cemitério de Taguatinga, decidiu ir ao Templo. “O coração me mandou vir hoje”, contou. Otaviana diz que se sente acolhida no espaço. “Saio renovada. Sou católica, mas, para mim, não tem nada a ver uma coisa com a outra. O que manda é o coração da gente”, afirmou.
Ilda Costa, 56, e a mãe, Rosália da Costa de Moura, 86, decidiram visitar o Templo da Boa Vontade depois de uma antiga vontade da mãe. “Hoje, ao invés de irmos ao cemitério, deu vontade de vir pra cá. Foi maravilhoso, saio daqui com muita paz no coração”, contou Ilda. Ao falar da experiência, Rosália se emocionou: “É uma emoção muito grande. Eu não consigo nem descrever o que sinto aqui”, disse.
Fonte Correio Braziliense
Foto: Ana Carolina Alves/CB









