Conhecido como o “berço das águas” do Brasil por abrigar as nascentes das principais bacias hidrográficas, o Cerrado enfrenta uma urgente crise socioambiental decorrente do desmatamento e das mudanças climáticas. Dados oficiais do governo federal e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) indicaram um marco positivo: a taxa anual de desmatamento no bioma caiu 23,8% entre agosto de 2025 e julho de 2026, somando 5.516,69 km² suprimidos — a menor marca da série histórica do Prodes Cerrado, iniciada em 2001.
A despeito da intensificação da fiscalização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a destruição permaneceu concentrada na região do Matopiba (Tocantins e partes de Maranhão, Piauí e Bahia), responsável por 74,3% de toda a vegetação convertida.
Apesar do recuo recente, o panorama histórico é crítico. O Cerrado se consolidou como o bioma mais desmatado do país, preservando menos da metade de sua cobertura original. Mapeamentos do MapBiomas apontaram a perda de 51,7 milhões de hectares de vegetação nativa entre 1985 e 2025, com a agropecuária ocupando 48,9% do território.
Destaca-se a perda de 13,9 milhões de hectares de vegetação em faixas de até 500 metros das margens de rios (26,9% do total), com impacto severo nas bacias do Alto Tocantins e do Araguaia. Além disso, pesquisas do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) revelaram que 73% da vegetação secundária em regeneração foi destruída antes de completar 10 anos, fragilizando a proteção natural contra eventos extremos.
Biodiversidade e ameaças no DF
A bióloga e professora da Universidade de Brasília (UnB) Mercedes Bustamante observa que o Distrito Federal abriga cerca de 25% da flora lenhosa do bioma, mas perdeu a maior parte de sua cobertura original, com cerca de 30% das espécies vegetais locais extintas no território. Atualmente, registram-se 21 espécies raras sob risco e sete oficialmente ameaçadas de extinção. “A fragmentação dos hábitats isola as populações vegetais, gerando endogamia, perda de variabilidade genética e degradação por efeito de borda, o que compromete severamente a capacidade de adaptação dessas espécies frente aos extremos climáticos”, afirma.
Frutíferas nativas como o pequi, o baru e o araticum — esta com baixa taxa de sobrevivência no transplante — e o buriti, símbolo das veredas da capital federal, sofreram forte pressão da expansão urbana e agrícola. Diante das projeções de um clima mais quente e seco, a especialista enfatizou a necessidade de monitoramento contínuo e corredores ecológicos.
“As projeções científicas convergem para um ambiente futuro mais quente e seco, o que deverá reconfigurar profundamente a vegetação da região e exigir ações urgentes de conservação in situ e ex situ (estratégias aplicadas principalmente na conservação da biodiversidade e na remediação de áreas contaminadas)”, completa a professora.
Desafios para a recomposição ambiental
Engenheiro florestal, conselheiro do Conama e coordenador de projetos da Funatura, César Victor alerta que o aquecimento global desestrutura as interações ecológicas, afetando insetos e animais fundamentais para a polinização e a dispersão de sementes. “Com as mudanças climáticas e a distribuição irregular de chuvas, espécies que não se adaptam rapidamente sofrem diminuições drásticas, gerando um efeito em cadeia que prejudica severamente a fauna polinizadora e a dispersão natural de sementes no bioma”, destaca.
Nos projetos de recomposição, o especialista aponta que o plantio convencional é limitado por utilizar apenas de 50 a 100 espécies, amostragem insuficiente ante as mais de 12 mil variedades do bioma. Para recuperar a diversidade genética, ele defende metodologias combinadas.
“O plantio tradicional com poucas dezenas de espécies não consegue recuperar a complexidade genética do bioma. Por isso, precisamos trabalhar com a semeadura direta e um mix abrangente de sementes para restabelecer a verdadeira dinâmica do Cerrado”, reforça.
César ressalta que a supressão de vegetação em chapadas para monocultivos comprometeu a infiltração promovida pelas raízes profundas, reduzindo a recarga dos aquíferos do DF. Como solução, propôs o planejamento integrado por bacias e a implantação de corredores que conectem Unidades de Conservação e APPs.
Fonte Correio Braziliense
Foto: Ed Alves CB/DA Press









