O Distrito Federal tem 2.253.132 eleitores. Destes, as mulheres somam 1.219.697 (54%). Apesar disso, elas só ocuparão, a partir de 2027, cinco das 24 (20,8%) cadeiras disponíveis na Câmara Legislativa do DF (CLDF). Esses dados evidenciam o contraste entre a presença das mulheres na política com o resto da população feminina da capital. As deputadas eleitas neste ano são: Dayse Amarílio (PSB), Estefane Sampaio (Republicanos), Jaqueline Silva (MDB), Keka Bagno (PSol) e Renata d’Aguiar (Republicanos). Ao Correio, a maioria falou sobre perspectivas acerca da posição que ocupam, propostas e a união em uma bancada feminina na CLDF.
Reeleita e atual procuradora da mulher na Câmara Legislativa, Jaqueline Silva pretende dialogar com parlamentares de diferentes partidos sobre pautas que acredita serem comuns a todos. Para ela, o combate ao feminicídio, a realização de cursos profissionalizantes e de empreendedorismo feminino são exemplos de políticas públicas suprapartidárias. Em seu mandato, ela pretende apresentar 26 projetos que tratam de direitos e avanços para as mulheres. “Atuaremos diretamente no fortalecimento econômico e profissional desse grupo, pois a dependência é um fator para a sustentação de situações de abuso e violência”, explicou.
Jaqueline avaliou ser necessário ter “um despertar para a representatividade”. Para ela, o MDB e demais partidos precisam atuar na construção de políticas públicas que fortaleçam o papel feminino na política. “É preciso estruturar essa política desde a formação escolar. É necessário que essa visão seja discutida no ensino fundamental”, defendeu.
A deputada Dayse Amarílio afirmou que será um desafio construir uma bancada feminina na CLDF, pela diversidade de perfis ideológicos entre as deputadas eleitas, e admite se ver com grande responsabilidade e missão no cuidado com a população feminina do DF. “O Legislativo deve representar mais do que legislar. Dar voz a quem não tem. É impossível se acostumar com as mulheres sendo mortas e a saúde ruim. As mulheres precisam de cuidado”, defendeu Dayse.
Além de propor novas leis, sua intenção é regulamentar projetos que existem no combate à violência de gênero, como o SEI Mulher, que protege mulheres de violência institucional. “Nós lutamos para legislar, mas, mais ainda, queremos fazer com que as leis sejam realidade e que sejam fiscalizadas”, ressaltou a deputada.
Para Keka Bagno, a presença de mulheres na política é atravessada por desigualdades estruturais e deve representar mudanças concretas na vida das cidadãs. “Ser mulher não significa, necessariamente, defender um projeto político comprometido com os direitos delas”, pontuou. A deputada afirma que espera encontrar apoio de parlamentares homens e mulheres de diferentes partidos na luta pela defesa da vida das mulheres e enfrentamento às violências.
“Tenho experiência na construção de diálogos, mas tenho clareza de que nosso mandato enfrentará o conservadorismo e qualquer tentativa de retirar direitos que as mulheres levaram décadas para conquistar”, destacou. Em suas propostas, a parlamentar priorizará políticas de cuidado, acesso à moradia, educação e apoio às mães e crianças, como o projeto Aluguel sem Fiador, a PL do Cuidado e o Espaço Coruja.
Renata d’Aguiar (Republicanos) destaca a importância de ter diferentes experiências e realidades presentes nos espaços de decisão. “Não se trata apenas de eleger mais mulheres, mas de garantir que elas tenham condições de participar, exercer seus mandatos e contribuir para as decisões que afetam toda a sociedade”, defendeu.
Ser uma das cinco candidatas femininas eleitas é uma grande responsabilidade, na avaliação de Renata. Sua intenção é de que essa presença não seja apenas numérica, mas que se traduza em propostas, fiscalização e políticas públicas. Algumas de suas propostas são a criação de benefícios de transição para mães atípicas e retorno de atendimento pediátrico nas Unidades Básicas de Saúde (UBS). “Espero que a nossa geração de deputadas ajude a abrir caminhos para que mais mulheres ocupem esses espaços no futuro”, salientou.
Cientista política da Universidade de Brasília (UnB), Evelyn Apolinária explicou por que ser maioria no eleitorado não significa espelhamento desta quantidade no âmbito parlamentar. “A candidatura passa por filtros controlados pelas direções partidárias, que são majoritariamente masculinas. As mulheres entram na disputa com menos recursos, visibilidade e tempo de carreira política acumulado”, avaliou.
De acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), foram registradas 433 candidaturas para o cargo de deputado distrital nas eleições de 2026. Dentre elas, 281 foram homens. O número corta quase pela metade nas candidaturas femininas, com 152 mulheres concorrendo ao pleito.
Posições divergentes
Os partidos, de esquerda e de direita, conforme apontou Evelyn Apolinária, possuem agendas distintas, mas que podem confluir. “O impacto sobre direitos depende da agenda que cada parlamentar defende. Há mulheres eleitas com posições divergentes sobre temas como direitos reprodutivos, enfrentamento à violência de gênero e igualdade salarial”, observou Evelyn.
A especialista explica a diferença entre diferentes tipos de representatividade. A descritiva diz respeito a quem está presente. “O perfil dos parlamentares se parece com o da população”, afirmou. A representatividade substantiva diz respeito ao que é feito em nome dos grupos representados, “se as políticas aprovadas refletem os interesses de determinado grupo”, ou seja, pontos de vista diferentes entre a direita e a esquerda.
Segundo Evelyn, as duas dimensões se relacionam, mas não de forma automática, porque as mulheres eleitas também estão ligadas a partidos, a convicções ideológicas e a bases eleitorais diferentes. “A presença feminina aumenta a chance de que certos temas entrem na agenda, mas a conversão em políticas depende da posição institucional que essas mulheres ocupam e da vontade política da maioria”, concluiu.
Tendo em vista essa diferenciação, Teresa Starling, também cientista política pela UnB, falou que é fundamental refletir sobre quais mulheres estão sendo escolhidas para representar a população feminina. Portanto, recortes como desigualdades de raça, de classe e de território devem ser pensados. “Precisamos considerar que as desigualdades de gênero não existem isoladamente”, ponderou.
Starling fez uma análise da forma como a violência política afasta as mulheres da vida pública, tanto as candidatas quanto as eleitoras. “Essas violências atingem muito mais pessoas do que as vítimas diretas. Quando uma mulher vê outras candidatas sendo humilhadas, ameaçadas e atacadas publicamente, isso influencia a maneira como ela percebe a possibilidade de participar da política”, observou.
Potencial político
Segundo a especialista, diante desses obstáculos, defender a igualdade de gênero dentro dos partidos como parte da organização política e não apenas como uma obrigação eleitoral surge como uma prática efetiva para ter mudanças na quantidade de mulheres eleitas. Para tanto, é preciso “investir na formação de lideranças femininas, identificar mulheres que tenham potencial político e realmente acreditar nessas candidaturas, oferecendo estrutura, financiamento e oportunidades de crescimento”.
No entanto, Starling reconhece que o caminho para conseguir representatividade “é difícil, porque a mulher precisa demonstrar o triplo de capacidade, tomar o triplo de decisões certas e transmitir o triplo de confiança para receber o mesmo reconhecimento que um homem”. Mesmo nessas situações, há quem ainda duvide da competência das candidatas femininas. “Não vamos conseguir construir uma política realmente igualitária enquanto continuarmos reproduzindo, dentro das instituições, as mesmas desigualdades que existem fora delas”, finalizou. Até o fechamento desta edição, a deputada distrital eleita Estefane Sampaio (Republicanos) não havia respondido ao contato do Correio.
Estagiárias sob a supervisão de José Carlos Vieira
Fonte Correio Braziliense
Foto: Caio Gomez









