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‘Mulher não ajuda mulher’: o receio que uma executiva de compliance levou para a sala de aula

Na entrevista de seleção para o ABP-W, Advanced Boardroom Program for Women da...

Na entrevista de seleção para o ABP-W, Advanced Boardroom Program for Women da Saint Paul, Rudmila Onha Cruz ouviu um aviso da diretora do curso, Christiane Aché. Talvez a turma não tivesse só advogadas ou só pessoas do mercado financeiro. Talvez quase ninguém tivesse a mesma formação que a dela.

“E foi isso que me interessou”, diz.

Executiva jurídica, de compliance e de privacidade de dados, Rudmila passou 15 anos no Banco Votorantim, onde chegou a compliance officer e DPO. Depois, passou pela Azul e pela Vila Rica Capital, gestora em que foi General Counsel e Chief Compliance Officer até o fim de 2025. 

Hoje presta consultoria a empresas. No ABP-W, conta, o que aprendeu veio menos do conteúdo técnico, que já dominava, e mais das colegas de outras áreas.

Da arquitetura ao mercado de capitais
Rudmila passou a vida dizendo que faria arquitetura, mas escolheu direito. No meio da faculdade, entrou no BBA, então um banco de investimentos pequeno “que veio a se tornar muito grande”. Ficou seis anos e meio, de estagiária a advogada.

No Banco Votorantim, onde ficou 15 anos, diz ter feito “tudo o que se faz no mundo financeiro e no mercado de capitais”. Começou no jurídico de asset e fundos e depois foi para a corretora. Com o tempo, assumiu mercado de capitais, recuperação de crédito, seguros, varejo e venture capital. No fim desse período, passou a responder por compliance e se tornou a DPO do banco.

De tudo isso, o que mais gostou de fazer foi gerir pessoas. “Eu sempre cobrei muito das pessoas, mas sempre tive muito orgulho do que todos eles fizeram”, diz.

Quando a intuição do advogado não basta
A migração para compliance e proteção de dados aconteceu quando a função de DPO ainda se consolidava no Brasil. Segundo Rudmila, muitas empresas tratam jurídico e compliance como iguais, mas não são. “O jurídico vai interpretar a norma, mas sempre vai achar a sua defesa. O compliance vai seguir todas as normas que existem dentro da instituição”, ela fala.

Com dados, a intuição de advogada deixou de bastar. Ela passou a trabalhar com matemáticos e engenheiros que perguntavam “de onde você tirou isso?”. Precisou definir o que implementar, que sistemas trocar e o que podia esperar. Um ofício sem resposta, lembra, pode gerar uma multa maior que o faturamento da instituição.

O que sustentou essas decisões, diz, foram os anos de confiança da alta administração e a capacidade de documentar cada escolha. “Compliance tem muito disso, que é aquilo que você faz quando ninguém está olhando”, comenta.

Diferenciar-se de todo mundo
Há cerca de 15 anos, em vez de uma pós em direito, Rudmila fez um MBA em Banking. “Direito eu vou aprender. Eu quero saber o mais estratégico, quero me diferenciar em relação aos meus pares”, diz. Para ela, saber a norma é o básico —- o que vinha a mais era ler balanço e fazer conta.

O ABP-W veio com outra ambição. 

“Eu quero me diferenciar não só dos meus pares, dos meus advogados, mas de todo mundo. Quero saber o que outras pessoas de outras áreas também sabem”
Rudmila Onha Cruz, executiva jurídica e de compliance, hoje atua como consultora de empresas
Na turma, encontrou fundadoras de empresas, profissionais de marketing e de tributos, executivas de estatais e mulheres de várias regiões do país.

Os módulos de ética e gestão de riscos não trouxeram novidade direta para quem lidava com os temas havia anos. O ganho veio de quem estava ao lado. “Às vezes aquilo que era muito básico pra mim, pra outra pessoa não era”, traz.

Ela diz ter aprendido a detalhar melhor suas explicações, algo que levou para a Azul. Também ficou mais pragmática. “Advogado fala demais. Às vezes enrola, enrola, e a pessoa pergunta: você está querendo chegar aonde?”

‘Mulher não ajuda mulher’
Vinda de mercados majoritariamente masculinos, Rudmila chegou com receio de um programa só para mulheres. “A gente tem aquela visão: mulher não ajuda mulher. É tão difícil chegar que, quando você chega, não tem em quem se apoiar.” Temia que as colegas estivessem ali apenas para vender o próprio negócio.

O primeiro trabalho em grupo desfez a impressão. As colegas daquele grupo continuam em sua vida. “Eu poderia ter outras amigas nesse mercado também”, diz.

A rede seguiu depois do curso. Um dos trabalhos que fez após o ABP-W veio do grupo de vagas das ex-alunas. Rudmila participa de mentorias e vê crescer entre as colegas a vontade de retribuir. “A força da comunidade não é só quando eu não estou bem. Às vezes é quando você está bem”, traz.

Fora da empresa
Depois de 15 anos no banco, Rudmila tirou dois anos sabáticos para cuidar de si e ficar perto da família que estava construindo. O período no ABP-W, conta, despertou a vontade de fazer coisas diferentes e a levou à Azul. Em seis meses, percebeu que aquele não era o caminho. Seguiu para uma gestora menor, onde passou a atender fundações e regimes próprios de previdência.

Neste ano, decidiu se reinventar como consultora. “Eu tenho quase 47 anos, e o que eu decidir agora vai ser praticamente para o resto da minha vida”, conta. Talvez, diz, o caminho não seja mais estar dentro de uma empresa, e sim conhecer várias.

A convicção para essa mudança, ela atribui às histórias que ouviu na sala de aula. “Isso te possibilita falar: eu posso qualquer coisa que eu me coloque a fazer”, finaliza.

Fonte Exame
Foto: Exame

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