“Não sei qual a importância disso. O Brasil tem que olhar para frente. Qual a importância de ficar guardando o lugar onde Juscelino dormia? Qual a importância de saber quem foi Juscelino?” Foi com essa espantosa sinceridade e cintilante insensibilidade que o funcionário do Senado Ítalo de Oliveira justificou a destruição do Catetinho II, em 1985.
A verdadeira residência e Palácio de Despacho do presidente Juscelino Kubitschek, no Planalto Central, durante a construção de Brasília, entre maio de 1957 e a inauguração do Palácio da Alvorada, em 30 de junho de 1958, foi no Catetinho II. Com quatro suítes, um amplo gabinete de trabalho, um salão adequado para receber com os protocolos de um chefe de Estado e um bar harmonioso, o lugar encantou JK, que poderia acolher, também, a sua família. Devidamente decorado com móveis desenhados e fabricados por Sérgio Rodrigues e obras de arte assinadas pelos modernistas já famosos na época, todo avarandado e adornado com treliças, o Catetinho II só trazia como ostentação os traços delicados e singelos de Oscar Niemeyer.
Francisco Higino Craveiro Lopes, então presidente de Portugal, foi o primeiro chefe de Estado a visitar Brasília em construção, no dia 2 de junho de 1957. JK o recepcionou, em grande estilo, no Catetinho II. Robert Wagner, então prefeito de Nova York, e sua ampla comitiva, depois de percorrerem o Plano Piloto em fazimento, foram contemplados com um célebre almoço sob os pilotis do Catetinho II, em 17 de novembro de 1957. Em junho de 1959, atendendo ao convite de Juscelino, Tom Jobim e Vinicius de Moraes fizeram sua histórica visita ao Planalto Central. Hóspedes do Catetinho II durante 10 dias, habitués do famoso bar do petit palais, os poetas compuseram a Sinfonia da Alvorada e o sucesso bossanovista, standard do jazz, Água de Beber, numa alusão direta à fonte do Ribeirão do Gama que fica no local.
Numa data imprecisa depois da inauguração de Brasília, em 21 de abril de 1960, sem uma formalidade conhecida, um registro oficial da Novacap, o empreiteiro Sebastião Camargo, dono da construtora Camargo Corrêa, desmontou e transportou o precioso monumento da recém-inaugurada capital da República para a sua chácara na Quadra 26 do Park Way. Ali o abandonou até 1985 — ano marcante da redemocratização do país — quando vendeu o imóvel, com a memória da cidade já em precárias condições, ao intrigante Ítalo de Oliveira. Num átimo, este senhor desmanchou o Catetinho II, usando o material da histórica obra de Niemeyer para edificar uma nova residência. Também não tivemos acesso ao paradeiro do rico mobiliário do Catetinho II nem das obras de arte que sublinhavam o estilo, a elegância e a beleza do pequeno e precioso palácio. As telhas que não foram usadas serviram de abrigo para as galinhas. A banheira de porcelana que integrava a suíte presidencial passou a servir de cocho para os jumentos da chácara. Desrespeito — Segunda Residência Oficial de JK é demolida. Restos do Catetinho 2 viram cocho e galinheiro. É esse o título da bela matéria, assinada pela jornalista Ana Beatriz Magno, com fotos de Gilberto Alves, publicada pelo Correio Braziliense no dia 16 de abril de 2004. O mais completo registro desse crime contra o patrimônio e a memória de Brasília e do país ao qual tivemos acesso.
Quando desembarcou pela primeira vez no Sítio Castanho, no dia 2 de outubro de 1956, às 11h40, JK já encontrou um aeroporto parcialmente construído — onde hoje fica a antiga rodoferroviária — e uma pista de pouso mais singela, ao lado da sede da Fazenda Gama, construída por Bernardo Sayão. Altamiro de Moura Pacheco, então presidente da Comissão de Cooperação para a Construção da Nova Capital, constituída pelo governador de Goiás, Juca Ludovico, em outubro de 1955, já havia feito o mapa de todo o Sítio Castanho e elaborado o croqui do Núcleo Residencial Pioneiro, que deveria ser edificado próximo à cabeceira do Rio Gama. O engenheiro Joffre Parada, auxiliar precioso de Moura Pacheco e cartógrafo pioneiro de Brasília, já havia feito todo o detalhamento técnico para a escolha do lugar.
O Juca’s Bar, no Hotel Ambassador, no Rio de Janeiro, era um ponto de encontro de intelectuais, políticos e jornalistas. Foi ali, no dia 12 de outubro de 1956, que Oscar Niemeyer, César Prates, os engenheiros José Ferreira Prates (Juca Chaves) e Roberto Penna, Milton Prates, Emydio Rocha e Vivaldo Lyrio se encontraram para resolver a demanda presidencial. Na pauta, a urgente construção do Palácio de Tábuas. A ideia, oferecida pelo general Lott, de montar barracas militares no local, como estrutura de apoio para as visitas do presidente, não teria agradado. “Quero um local onde eu possa pernoitar”, reagiu JK. No encontro no Juca’s Bar, ficou definido que o engenheiro Roberto Penna cuidaria da logística necessária para a realização da obra: máquinas, equipamentos e mão de obra. Juca Chaves e Milton Prates providenciariam o apoio financeiro. Oscar Niemeyer faria o projeto. No dia 22 de outubro, depois da mobilização épica coordenada por Roberto Penna, teve início a construção do Palácio de Tábuas, posteriormente nominado por Dilermando Reis de Catetinho. Uma alusão óbvia ao Palácio do Catete, no Rio de Janeiro.
No dia 1º de novembro de 1956, em apenas 10 dias, o sóbrio prédio estava pronto. A inauguração, entretanto, só se daria no dia 10 daquele mesmo mês. No almoço festivo estavam, além da equipe de engenheiros e os construtores da obra, o governador Juca Ludovico, o senador Pedro Ludovico, o vice-governador Bernardo Sayão, Joffre Parada, Oscar Niemeyer, Ernesto Silva, Israel Pinheiro, a elite política, a sociedade goiana e tantos outros. JK comemorou, mas não gostou. Não cabia nenhuma opulência no novo palácio, mas, antes, alguma majestade. Como poderia receber dona Sarah, as suas filhas e dona Julia? Como receber um chefe de Estado? Dirigindo-se ao avião que o levaria ao Rio, no dia 11 de novembro de 1956, JK, ao abraçar Niemeyer, fez as suas ponderações. O Catetinho II começou a ser planejado já naquele mesmo dia. O verdadeiro primeiro Palácio de JK em Brasília, misteriosamente apropriado pelo empresário Sebastião Camargo, dono da Construtora Camargo Corrêa e, posteriormente, destruído pelo servidor do Senado Ítalo de Oliveira.
*Jorge Henrique Cartaxo é jornalista, mestre em história pela Universidade Paris-Sorbonne
Fonte Correio Braziliense
Foto: Arquivo pessoal









