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Vivência LGBTQIA em cena na terceira rodada do Festival de Brasília

O Cine Brasília, um dos principais cinemas de rua do país, abriu as...

O Cine Brasília, um dos principais cinemas de rua do país, abriu as portas na noite deste domingo (12/9) para a terceira rodada do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. A grade da Mostra Competitiva Nacional reuniu o longa-metragem híbrido Pequenas tragédias, dirigido por Daniel Nolasco, e o curta experimental Gastronomia do olho, do cineasta Nicolau.

Exibido na consagrada sala Vladmir Carvalho, o novo projeto do diretor Daniel Nolasco aborda o universo da cultura e da vivência LGBTQIA . Entre o público, estava Sarah Paiva, de 29 anos, que compartilhou suas expectativas para a sessão “Estou animada para ver o filme no festival. É ver a nossa vida, nossos desejos e quem a gente é ocupando um espaço tão político. Nossas histórias não precisam ser escondidas ou ‘suavizadas’ para estarem em um lugar tão importante. O filme de hoje mostra que o nosso amor e o nosso corpo também têm direito a esse espaço”, afirma.

O ponto de partida do longa-metragem Pequenas tragédias (119 min) é a mudança do próprio cineasta para o Rio de Janeiro, em 2011. Primeiro de um grupo de amigos queers a deixar Catalão (GO), cidade descrita pelo autor como de excelente qualidade de vida, o diretor observa a dispersão total desse grupo ao longo dos anos. A obra em formato híbrido marca o novo projeto de Daniel Nolasco, realizador goiano graduado em cinema pela UFF e em história pela UFG, com trajetória marcada por títulos como Vento seco e Paulistas.

Ao abordar temas locais e universais, a produção busca gerar uma identificação direta com os espectadores presentes na sala de exibição. O ator Lucas Drummond destaca como a proximidade geográfica e o tom da narrativa fortalecem essa troca. “É um filme que faz um retrato das vivências LGBT numa cidade do interior do Centro-Oeste. Acho que o público de Brasília vai se identificar e se reconhecer em muitas coisas e personagens. O cinema do Dani traz um regionalismo muito característico dos filmes dele e, por Goiânia ser muito perto, a maior parte da equipe e do elenco pôde estar presente na sessão.”

Na trama, a construção dramática acompanha os impactos do preconceito na vida dos personagens retratados, mesclando realidade e ficção. O intérprete detalha a essência do papel e o peso do conflito social em sua jornada. “O filme é dividido em cinco capítulos, é um híbrido entre documentário e encenação. Cada capítulo narra a história de um personagem que passou pela vida do Nuno Nolasco em Catalão. O Samuel foi um amigo de escola dele. Gosto de pensar no Samuel como uma luz que vai se apagando por conta dos conflitos e do preconceito interno e externo que vive na cidade”, destaca Lucas.

O ápice emocionante da participação do ator se dá em uma sequência de acerto de contas e despedida simbólica. Ele comenta a carga poética desse momento e a particularidade de suas parcerias com o diretor. “O Daniel Nolasco só me chamou para fazer personagens que morrem nos filmes dele. Então, acho que devo morrer muito bem na tela. Mas a última cena do Samuel é muito especial e tocante: o personagem do Nolasco vai para o Rio de Janeiro estudar cinema e, quando volta depois de muito tempo, ele se reencontra com esse amigo que já faleceu. É um momento muito poético, em que ele pode pedir desculpas e ter uma última conversa que tinha ficado sem ser dita”, afirma Lucas.

Além do filme de Nolasco, também foi exibido o curta experimetal Gastronomia do olho, do diretor Nicolau. A história começa com uma caminhada por São Paulo, dois atores conversam sobre vida, morte e teatro até o momento em que a caminhada se confunde com o ensaio e a dupla encarna Bibelot e Aurora, personagens da peça Os sete gatinhos, horas antes da entrada em cena no Teatro Oficina. Com trabalho voltado para o cinema queer, sensorial e marcado por práticas fotoquímicas, o diretor brasiliense assina a obra após realizar os filmes Descamar e Paredes clandestinas.

Autógrafos

No fim de uma fila que dava voltas pela praça de alimentação do espaço, o cineasta Kleber Mendonça Filho distribuía autógrafos nos exemplares do roteiro de O Agente Secreto. Entre as dezenas de pessoas que aguardavam a vez, estava o diretor de fotografia Dirceu Lustosa. “Eu conheço o Kleber há 30 anos, a gente foi curta-metragista junto. Então, poder celebrar tudo isso que aconteceu com ele é celebrar a minha geração que abraçou o cinema”, afirma.

Além de Dirceu, a atriz e diretora Catarina Accioly também aguardava a sua vez na extensa fila para garantir a sua assinatura. Para a cineasta, a obra vai além de um registro de bastidores. “O Kleber é um diretor realmente inspirador, e esse livro detém um conteúdo que vai inspirar outros realizadores a ter uma carreira tão frutífera e próspera quanto a dele. Além disso, as curiosidades de uma pessoa que conseguiu ser indicada ao Oscar atingem um público muito grande, porque ele levou novamente um grande potencial de espectadores brasileiros para a sala de cinema”, comenta.

*Estagiária sob a supervisão de Malcia Afonso 

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