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Vítima de sequestro e violência faz alerta a mulheres que sofrem abusos

Cinco dias depois de ser resgatada de um cativeiro em Águas Lindas (GO),...

Cinco dias depois de ser resgatada de um cativeiro em Águas Lindas (GO), no Entorno do Distrito Federal, a técnica de enfermagem Emiliane Tamara Nunes Carvalho, 24 anos, recebeu o Correio e relembrou os detalhes do sequestro cometido pelo ex-companheiro, Ailton Rodrigues de Souza. Ainda com dores e tonturas decorrentes das agressões, ela decidiu falar publicamente sobre o caso “para que outras mulheres não se calem” diante da violência. “O que eu posso dizer para as mulheres, hoje em dia é: não aceite o inegociável. No primeiro sinal, sai fora. Porque eu tive vários sinais”, afirma.

O desaparecimento

Emiliane desapareceu em 17 de agosto, segunda-feira, depois de sair de casa para fazer um depósito e ir a uma consulta em uma clínica de estética na Barragem 1, em Águas Lindas (GO). Segundo ela, já havia combinado com o ex-companheiro, pai de seus dois filhos, de conversar sobre a audiência marcada para a terça-feira seguinte, na qual tratariam de pensão alimentícia. “Assim que eu saí dessa clínica, que é o vídeo que roda de eu saindo da clínica, eu fui para a loja, que é próxima de lá, atravessei a passarela e fui para a loja, e encontrei ele lá”, conta.

Na distribuidora da qual o ex-companheiro cuidava após a separação do casal, os dois tentaram conversar. Segundo Emiliane, ele não quis discutir questões sobre as crianças e insistiu em uma reconciliação. “Ele não deu assunto de forma nenhuma das crianças, não queria conversar de forma nenhuma, queria reatar, [disse] que poderia mudar, que a gente poderia voltar, voltar a ser uma família feliz”, relata.

A armadilha

Emiliane contou que os dois foram para os fundos do estabelecimento, onde havia uma cama e uma televisão. Ela relata que, ao perceber a insistência dele em uma aproximação física, recusou o contato. “Eu falei: não, a gente não vai, eu não quero, já acabou, nós já tivemos seis anos de relacionamento, já acabou”, diz. Mas, segundo seu depoimento, o local já estava preparado para o ataque: “Infelizmente era uma armadilha, lá já estava com tudo preparado, eu não tinha percebido”.

De acordo com o relato, o ex-companheiro lhe deu alguma substância química que a deixou desnorteada.

Emiliane afirma ter permanecido consciente durante parte da agressão, mas sem forças para reagir. “Eu estava consciente, eu ouvia tudo, mas eu não tinha mais força para debater e para mais nada”, alega. De acordo com seu relato, também houve violência sexual, conta.

O cativeiro

Na entrevista, Emiliane afirma ter sido levada até o imóvel no bairro América III, onde ficou mantida em cárcere por cinco dias. Segundo seu relato, era liberada apenas em determinados momentos para se alimentar. “Ele me soltava somente as mãos, e tirava a máscara e a mordaça, pra eu poder comer, isso uma vez no dia, nem sempre, nem todas as refeições”, lembra. Ela diz ter perdido a noção do tempo, orientando-se apenas pelas refeições recebidas.

A vítima relatou ainda que, antes de deixar o local pela última vez, o ex-companheiro a manteve sedada com uso de medicamentos.

Segundo Emiliane, Ailton propôs um acordo antes de sair de casa pela última vez, oferecendo bens e dinheiro em troca de seu silêncio. “Nós podemos fazer um acordo, ou nós dois morremos aqui juntos, ou eu te passo todos os bens que nós temos, e tudo que eu tenho de dinheiro”, teria dito o suspeito, segundo o relato dela. Ela afirma que chegou a escrever uma carta, a pedido dele, endereçada à mãe, para que a genitora recebesse um advogado que traria a documentação dos bens.

O resgate

Emiliane foi localizada e resgatada em 21 de agosto por policiais militares da Companhia de Policiamento Especializado (CPE) Entorno Oeste, que abordaram Ailton Rodrigues de Souza. No imóvel, os policiais encontraram a vítima presa com algemas, cordas e uma corrente de ferro, além de uma máscara no rosto usada, segundo a polícia, para impedir que vizinhos ouvissem seus gritos. Segundo a vítima, ela não sabia precisar há quantos dias estava no cativeiro. “Eu não sei se é de manhã, se é de tarde, se é de noite, eu não tinha noção de nada disso”, relembra.

Ailton foi preso em flagrante por sequestro, estupro e cárcere privado. No sábado, a Justiça de Goiás decretou a prisão preventiva, atendendo a pedido baseado em “ameaças reiteradas, constrangimento físico e restrição da liberdade” da vítima, segundo decisão do juiz Cristian Assis, da 2ª Vara Criminal da Comarca de Ceres. O caso segue sendo apurado pela Polícia Civil de Goiás.

“Muito explosivo”

Separada do ex-companheiro desde dezembro de 2025, Emiliane afirma que o comportamento possessivo e explosivo dele já se manifestava desde o início do namoro, em 2020. “Ele sempre foi muito explosivo, muito explosivo. Eu acho que qualquer pessoa que você perguntasse sobre ele, [diria que] ele era uma pessoa muito explosiva, muito nervosa”, diz. Segundo ela, até a família dele tinha medo de suas reações.

A vítima relatou que o primeiro episódio de descontrole ocorreu após uma comemoração que organizou em seu apartamento, quando ainda namoravam, com colegas de trabalho da área de enfermagem. “Do nada ele chegou quebrando tudo, quebrando tudo. Eu não aceito que você está com vagabundagem, que não sei o quê e tudo assim”, disse ele, segundo Emiliane. A partir daí, segundo ela, o controle se estendeu a amizades, horários e à escolha da academia onde treinava. “Ele me tirou de uma academia grande para colocar em uma academia pequena, onde só mulheres podem treinar”, conta.

Para Emiliane, a dependência emocional construída ao longo do relacionamento, iniciado quando ela tinha 18 anos, dificultou o reconhecimento dos sinais de violência. “Não sei se era amor, se era dependência, era dependência emocional, porque eu casei com ele com 18 anos. O amor é cego, a gente não vê”, reflete.

Recuperação e temores

Emiliane recebeu alta hospitalar e segue em recuperação, ainda sentindo tonturas e dores decorrentes da sedação prolongada e das agressões físicas. “Eu ainda sinto muita dor da minha boca, porque o que tá aqui por fora não é nem metade do que eu tô por dentro”, relata.

A vítima afirmou temer represálias e exposição, mas disse que decidiu se manifestar publicamente para incentivar outras mulheres a romperem o silêncio diante da violência. “Se toda moça que for estuprada, ou sequestrada, ou alguma coisa assim, ela se calar, isso sempre vai ficar acontecendo. Então, assim, alguém tem que ter coragem de ir lá e se expor”, afirma.

Ela também disse acreditar que o ex-companheiro não agiu sozinho, embora não tenha feito acusações diretas a terceiros. “Eu acredito que ele não estava sozinho nessa, eu não posso acusar ninguém, mas eu acredito que ele não conseguiria fazer tudo isso sozinho”, diz, mencionando ainda ter notado versões contraditórias entre pessoas presentes na delegacia no momento do resgate.

Apesar do trauma, Emiliane afirmou que pretende seguir em frente. “Eu acredito que eu ainda vou sofrer muito com isso, mas eu vou passar dessa barreira”, conclui.

A dimensão psicológica do trauma

Para a psicóloga clínica Laynara Paiva, uma situação de cárcere como o vivido por Emiliane Tamara atinge diretamente a base do funcionamento psicológico da vítima: a sensação de segurança e de controle sobre a própria vida. Segundo ela, quando a pessoa é impedida de decidir sobre o próprio corpo, o sistema de sobrevivência permanece em estado de alerta mesmo depois do resgate. “O sofrimento nem sempre aparece apenas como uma lembrança consciente. Ele pode aparecer através do corpo, de pesadelos, alterações do sono, um estado de hipervigilância, dificuldade de concentração, irritabilidade, sensação de insegurança e lembranças invasivas do que aconteceu”, explica.

A especialista destaca que sentimentos aparentemente contraditórios, como alívio e medo, ou raiva e culpa, podem coexistir após uma experiência como essa. A culpa costuma ser um dos pontos mais delicados, já que vítimas tendem a buscar retroativamente algo que “poderiam ter feito diferente”. Mas ela faz uma ressalva importante: “Precisamos diferenciar responsabilidade de sobrevivência. Em uma situação de ameaça extrema, o cérebro pode priorizar estratégias de sobrevivência, e respostas como congelamento, submissão ou dificuldade de reagir não significam consentimento ou fraqueza”.

A psicóloga também chama atenção para o fato de a violência sofrida por Emiliane ter sido, segundo o relato da vítima, premeditada, o que pode aprofundar ainda mais o abalo psicológico. “A vítima pode começar a se perguntar: ‘há quanto tempo isso estava sendo planejado?’, ‘como eu não percebi?’, ‘em quem eu posso confiar?’. O perigo deixa de ser percebido apenas como algo que aconteceu e pode passar a ser experimentado como algo que estava sendo construído ao redor dela sem que ela tivesse consciência”, afirma. Segundo ela, quando o agressor é alguém próximo, o trauma atinge não apenas a segurança física, mas a própria representação que a vítima tinha daquele vínculo.

Quanto à rede de apoio, Paiva recomenda que familiares e amigos evitem pressionar a vítima a relatar detalhes ou “superar” o ocorrido rapidamente. “O mais importante é oferecer segurança, presença e autonomia. Perguntar ‘como posso te ajudar?’, respeitar quando ela não quiser falar, ajudá-la nas necessidades práticas e acreditar no relato são atitudes muito mais protetivas”, orienta.

Apoio especializado

Sobre a busca por acompanhamento profissional, a psicóloga afirma que não é necessário esperar o surgimento de um quadro mais grave para procurar ajuda especializada. Sinais como pesadelos recorrentes, hipervigilância, isolamento, culpa intensa e dificuldade de retomar a rotina merecem atenção. “O tratamento precisa respeitar o tempo psíquico daquela pessoa”, diz. Para ela, o primeiro objetivo terapêutico deve ser devolver à vítima “segurança, autonomia, possibilidade de escolha e confiança no próprio corpo e na própria percepção”. “O resgate retira a pessoa do cárcere físico, mas a clínica pode ajudá-la a sair, pouco a pouco, do cárcere psíquico produzido pela violência”, resume.

A especialista ressalta, ainda, que os filhos de vítimas de violência também são afetados, mesmo quando não sofrem agressão direta. Segundo ela, crianças podem manifestar o sofrimento por meio de mudanças de comportamento, maior dependência dos adultos ou, ao contrário, um silêncio aparentemente autônomo. “A criança não pode ser colocada no lugar de proteger a mãe, escolher lados ou carregar o sofrimento dos adultos. Ela precisa continuar podendo ser criança”, afirma Paiva. 

Onde pedir ajuda

» Ligue 180 – Central de Atendimento à Mulher, funciona 24h e é gratuita

» Ligue 190 – Polícia Militar, em caso de emergência

» Casa da Mulher Brasileira (Ceilândia/DF) – atendimento 24h com delegacia especializada, juizado, atendimento psicossocial, defensoria e abrigamento temporário, tudo em um só local

» CEAMs (Centros de Referência de Atendimento à Mulher) – unidades descentralizadas em diversas regiões administrativas do DF, com acolhimento e acompanhamento psicológico e social

» Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs) – para registro de boletim de ocorrência

Fonte Correio Braziliense
Foto: Phillipe Mendes especial CB/DA Press

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