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O que o deserto do Saara ensina sobre carreira e liderança? Veja 5 lições

O deserto do Saara é uma terra de extremos. Espalhado por uma extensa...

O deserto do Saara é uma terra de extremos. Espalhado por uma extensa faixa do norte da África, atravessa diferentes países e combina dunas, planícies rochosas, escassez de água e temperaturas que podem ultrapassar os 40 °C. No Marrocos, uma de suas portas de entrada está no sul do país. Mas os contrastes encontrados por ali vão muito além da paisagem.

O Marrocos vive um momento de transformação econômica e projeção internacional, enquanto ainda tenta superar desigualdades históricas. Em 2024, 32,4% das mulheres marroquinas com 10 anos ou mais eram analfabetas, quase o dobro dos 17,2% registrados entre os homens, segundo o Haut-Commissariat au Plan (HCP), órgão oficial de estatísticas do país.

As contradições também aparecem nas fronteiras. Em 30 de julho, mais de 72 mil migrantes entraram em Ceuta, território espanhol no norte da África que faz fronteira com o Marrocos, em um episódio que voltou a colocar a pressão migratória rumo à Europa no centro do debate internacional. Ao mesmo tempo, o país investe bilhões de dólares em infraestrutura e se prepara para dividir com Espanha e Portugal os holofotes da Copa do Mundo de 2030.

É nesse Marrocos (entre o deserto e os grandes projetos de modernização, entre avanços econômicos e desigualdades ainda persistentes) que um grupo de empresárias e executivas brasileiras desembarca em setembro para discutir liderança, carreira e autonomia financeira.

Janaína Araújo, CEO da LÉKÈ Destination Strategy & Representation, conhece de perto a região, porque realizará a terceira edição do Desert Women Summit Brasil, entre 1º e 10 de setembro. O evento reúne lideranças femininas brasileiras no sul do Marrocos.

“Meu objetivo não é que uma mulher volte do Marrocos dizendo apenas que fez uma viagem maravilhosa. Quero que ela volte fazendo perguntas melhores sobre sua empresa, sua saúde, seu patrimônio, sua influência e sobre o impacto que é capaz de produzir”, afirma a empresária.

A proposta serve como ponto de partida para 5 reflexões para carreira e liderança, que serão aprendidas durante toda a programação, mas especialmente, no deserto do Saara.

Planejar é importante. Saber mudar o plano também
Poucas palavras aparecem tanto no vocabulário corporativo quanto o planejamento. Empresas projetam receitas, profissionais traçam metas e líderes constroem estratégias para os próximos meses ou anos.

O problema é acreditar que o plano será executado exatamente como previsto.

O deserto oferece uma metáfora particularmente visual para essa realidade: condições externas interferem no caminho e exigem adaptação. No trabalho, os imprevistos assumem outras formas — uma nova tecnologia, uma crise econômica, uma mudança de comando, uma demissão ou mesmo uma oportunidade que não estava nos planos.

“Uma carreira de décadas dificilmente será construída em linha reta”, diz a empresária que quase faliu durante a pandemia e precisou se reinventar.

Para líderes, isso significa que a capacidade de revisar decisões pode ser tão importante quanto a de tomá-las. Para profissionais, significa entender que mudar de empresa, área ou até de profissão não necessariamente representa abandonar um plano. Pode significar redesenhá-lo diante de novas circunstâncias.

Uma agenda cheia não significa uma carreira avançando
Existe uma armadilha na rotina profissional: confundir estar ocupado com estar progredindo.

Reuniões, mensagens, entregas e urgências criam uma sensação permanente de movimento. Mas é possível passar meses cumprindo tarefas sem reservar tempo para avaliar se aquele esforço aproxima o profissional de onde ele pretende chegar.

É aqui que o silêncio e o afastamento propostos pela experiência no Marrocos ganham significado.

A ideia não é que seja necessário atravessar o Atlântico para descobrir o próximo passo profissional. A provocação está em criar algum distanciamento da operação cotidiana para fazer perguntas que raramente entram na agenda.

“Estou aprendendo algo novo? O próximo passo que estou perseguindo combina com a vida que desejo ter? Se recebesse uma promoção amanhã, ela me aproximaria do meu objetivo ou apenas aumentaria minhas responsabilidades?”, diz Araújo.

São perguntas simples. Encontrar tempo para respondê-las costuma ser a parte difícil.

Correr mais não adianta quando o destino não está claro
O mercado de trabalho costuma recompensar velocidade. Há pressão para entregar mais rápido, crescer mais rápido e chegar mais cedo a posições de liderança.

Mas velocidade e direção são coisas diferentes.

Na carreira, isso aparece principalmente quando o próximo passo parece óbvio apenas porque é o caminho tradicional.

“Um bom especialista, por exemplo, pode buscar uma posição de gestão porque ela representa uma promoção, mesmo sem desejar administrar equipes. Um executivo pode aceitar um cargo maior pelo salário e descobrir depois que a função o afastou do trabalho que gostava de fazer”, afirma Araújo.

A pergunta deixa de ser apenas “qual é meu próximo passo?” e passa a ser “para onde esse passo está me levando?”

O mesmo raciocínio vale para quem empreende. Aumentar faturamento, contratar mais pessoas ou abrir novas unidades indica crescimento, mas não responde sozinho se o negócio está construindo valor sustentável no longo prazo.

Salário é apenas uma parte da autonomia profissional
Ganhar mais costuma ser uma das principais medidas de evolução profissional. Mas renda, patrimônio e liberdade para tomar decisões não são necessariamente a mesma coisa.

Uma pessoa pode ocupar um cargo executivo e receber um salário elevado, mas manter um padrão financeiro que torne praticamente impossível ficar alguns meses sem aquela renda.

É por isso que a discussão sobre patrimônio entra em uma conversa sobre carreira.

Ter reservas e construir ativos ao longo da trajetória profissional pode ampliar o poder de escolha: recusar uma proposta, sair de um ambiente que deixou de fazer sentido, passar por uma transição profissional, estudar ou começar um negócio.

O tempo é outro componente dessa equação.

“Uma promoção que aumenta significativamente a remuneração, mas elimina qualquer controle sobre a própria agenda, por exemplo, pode ser excelente para um profissional e pouco atraente para outro”, diz Araújo.

Nesse sentido, pensar a carreira no longo prazo exige uma pergunta que vai além de “quanto quero ganhar?”, mas “que liberdade quero que o trabalho me permita construir?

Bons líderes precisam sair da própria bolha
A ruptura proposta pela viagem não acontece apenas pela paisagem.

A programação prevê que as brasileiras conheçam cooperativas, atividades artesanais, projetos agrícolas e iniciativas de empreendedorismo feminino desenvolvidas por mulheres da região de Drâa-Tafilalet.

São realidades bastante diferentes das encontradas nas salas de reunião de grandes empresas brasileiras, e justamente aí pode estar uma lição importante de liderança.

Quanto mais um profissional sobe na hierarquia, maior pode ser o risco de passar a maior parte do tempo cercado por pessoas com experiências, repertórios e posições semelhantes às suas.

“Sair dessa bolha não significa apenas viajar. Pode significar ouvir funcionários de outras áreas, conversar diretamente com clientes, aproximar-se da operação ou buscar referências fora do próprio setor”, diz Araújo.

A experiência no Marrocos pretende ainda gerar parcerias para capacitação e desenvolvimento de atividades ligadas a cooperativismo, produtos, hospitalidade e turismo na região.

O empreendedorismo feminino sem fronteiras
Durante a viagem, as participantes irão conhecer cooperativas e iniciativas de empreendedorismo feminino da região de Drâa-Tafilalet, além de atividades agrícolas e artesanais desenvolvidas por mulheres marroquinas.

Criado em 2023, o Desert Women Summit já reuniu empresárias e executivas como Luiza Helena Trajano, Chieko Aoki e Rachel Maia. Na edição deste ano, estão previstas participantes de diferentes áreas, entre elas Luiza Brunet, Fabiana Scaranzi e Marta Lívia Suplicy.

Fonte exame
Foto: Colaborador/Getty Images

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