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Memórias e saberes ancestrais estão no centro de exposição de fotos no DF

Em celebração aos 24 anos de existência do terreiro Ilé Àse Òjúna Soroke...

Em celebração aos 24 anos de existência do terreiro Ilé Àse Òjúna Soroke Efon de Candomblé da nação Efon, o fotógrafo Luan Brasil abriu, nessa segunda-feira (18/8), a exposição Olhar Ancestral — 24 anos do Ilé Àse Òjúna Soroke Efon, na Biblioteca Nacional de Brasília. Com o tema “A fotografia como instrumento de memória, identidade e preservação dos saberes ancestrais”, as imagens mostram o sagrado e o cotidiano no território de religião de matriz africana habitado pelo artista, em Brasília.

Luan é fotógrafo, pesquisador e gestor cultural e filho do Bàbálórísà Veber Ti Soroke e da Ìyá Efun Alatundè, sacerdotes do Ilé Àse Òjúna Soroke Efon, nome do terreiro, que se traduz do yorubá para “A Casa de Força dos Olhos de Fogo de Soroke”. Luan ocupa um cargo na casa: Egbé Luan Ti Jagun, sacerdote. Para ele, carregar a câmera no meio do cotidiano no qual estava envolvido foi árduo, mas se traduz em gratidão. “É muito gratificante ver esse trabalho adentrando o espaço público, para que as pessoas tenham contato com essa cultura. Com essa religiosidade. A forma de pensar, agir e fazer o cotidiano e a vida dentro do terreiro”, celebra.

A curadoria da exposição contou com três olhares: do Bàbálórísà Veber, do professor da Universidade de São Paulo (USP), Fausto Viana; e da mestra da USP Maria Eduarda Borges. Para Fausto Viana, a importância do trabalho surge a partir do momento em que se traz o terreiro, espaço muitas vezes vítima de preconceito, para as pessoas conhecerem. Ele afirma que a exposição desmistifica a ideia desse desconhecido. “Está no nosso dia a dia. A cultura negra está envolvida na nossa vida. Você não é de terreiro, mas usa uma língua que é produto da miscigenação que aconteceu neste país. Você come comidas de origem africana”, aponta. 

Para os curadores, Luan captou o olhar do dia a dia, como uma senhora cortando quiabo, trabalhando com o neto. Um orixá incorporado. De acordo com Fausto Viana, isso “tira um pouco do lugar do ‘isso é proibido, isso é escondido'”. De forma unânime, o fotógrafo e a equipe resumem a exposição em um convite à um olhar coletivo pelos mais velhos e mais novos do terreiro e pelos ancestrais. 

O artista fortalece essa percepção produzindo arte a partir de quem vive e pesquisa a ancestralidade. Mais profunda que a perspectiva de quem vê externamente, a obra de Luan permite construir uma narrativa de memória. “A gente rememora o passado, para viver o hoje e compreender o presente para podermos esperar o futuro dos que vem depois de nós. Eu acredito que tem muito do meu olhar, mas ele não está sozinho. Foi pensado e construído em comunidade”, conta Luan.

Candomblé efon

O candomblé é uma religião afrobrasileira desenvolvida no Brasil após o processo de tráfico e escravização dos povos africanos durante a colonização. O candomblé se organiza em nações, representando diversos grupos de África. Efon é um desses grupos. As maneiras como os povos de terreiro e da religião transmitem seus conhecimentos é, principalmente, por meio da oralidade. 

Segundo dados do Mapeamento dos Terreiros do Distrito Federal, levantamento da Universidade de Brasília (UnB) de 2018, existem, no DF, 330 terreiros de religiões de matriz africana, como o Ilé Àse Òjúna Soroke Efon. 

Se hoje a exposição leva o terreiro para dentro de uma instituição como a Biblioteca Nacional, essa trajetória contrasta com um histórico de repressão, intolerância e racismo religioso. Há muito, terreiros de matriz africana no Brasil são alvos de ataques. Para o Bàbálórísà Veber, a mostra faz um trabalho no combate ao preconceito. “Quando ocupamos os espaços, descobrimos que podemos estar onde quisermos, isso é uma das maiores armas contra a intolerância religiosa”, diz. Ele acredita que a informação é o maior combate à ignorância.

Personagens

Para muitos dos pertencentes do Ilê, a exposição chegou antes mesmo de eles saberem que estavam nela. Boa parte das pessoas fotografadas por Luan ao longo desses anos — em rituais, no preparo de comida, no cotidiano da casa — ainda não sabem que suas imagens estão exibidas na Biblioteca Nacional. Luan conta que, ao serem avisados, a reação predominante tem sido de surpresa seguida de orgulho e felicidade.

Para além de uma mostra fotográfica, Olhar Ancestral propõe o convite a adentrar e permanecer. Transformar em imagem uma memória que se sustenta na oralidade entre gerações. Passados 24 anos de fundação do terreiro, o Ilé Àse Òjúna Soroke Efon chega como protagonista da narrativa. Segundo Luan Brasil, a exposição deságua em uma “emancipação na possibilidade de se aceitar enquanto indivíduo de terreiro”. Ele considera esse momento uma autoafirmação de quem se é e do que faz parte.

A exposição Olhar Ancestral — 24 anos do Ilé Àse Òjúna Soroke Efon, de Luan Brasil, fica aberta até 17 de setembro, no 2º andar da Biblioteca Nacional de Brasília, com entrada gratuita. Escolas e universidades podem agendar uma visita para condução de um arte-educador. 

*Estagiária sob a supervisão de José Carlos Vieira

Fonte Correio Braziliense
Foto:  Minervino Júnior/CB

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