A lista de leitura de um CEO costuma ter biografias de fundadores e manuais de gestão. Mas Jack Dorsey, cofundador do Twitter, e Brad Feld, um dos investidores mais influentes do Vale do Silício, têm em comum uma referência bem mais antiga que qualquer best seller de negócios: os dois citam publicamente a filosofia estóica como base para decisões de negócio — não são casos isolados.
No mundo da alta liderança, autores mortos há quase dois mil anos, como Marco Aurélio e Epicteto, viraram leitura recorrente entre CEOs, investidores e conselheiros, no lugar do enésimo livro sobre metodologia de gestão.
O movimento ganhou até endosso acadêmico. Karthik Ramanna, professor da Universidade de Oxford e autor de um livro sobre liderança em cenários de incerteza, defendeu no Fórum de Liderança da Harvard Business Review de 2025 que o estoicismo deixou de ser um exercício filosófico distante e passou a orientar decisões reais em conselhos e diretorias.
Segundo ele, a proposta não é indiferença ou frieza, e sim manter-se centrado para agir com intenção em meio ao caos.
Uma régua antiga para um problema atual
O conceito mais citado por executivos é conhecido como dicotomia do controle, formulado por Epicteto: existem coisas sobre as quais se tem influência direta e outras que não. A disciplina está em concentrar energia apenas na primeira categoria.
Ramanna resume essa lógica como uma mudança de postura, de apagar incêndio para decidir quais incêndios vale a pena deixar queimar, uma forma de dizer que nem toda crise exige resposta imediata do topo da hierarquia.
Na prática, o exercício é usado para reduzir decisões tomadas por impulso durante crises de mercado, mudanças regulatórias ou resultados trimestrais abaixo do esperado. Blake Irving, ex-CEO da GoDaddy, é outro nome citado como praticante da filosofia à frente de decisões de alto risco, ao lado de Dorsey e Feld.
Da leitura pessoal para a grade de formação executiva
O que começou como hábito individual de leitura tem migrado para dentro de programas formais de educação executiva. CEOs, conselheiros e acionistas passaram a ter contato com filosofia não como cultura geral, mas como ferramenta de raciocínio aplicada à tomada de decisão.
É o caso do SEER, programa de alto impacto da Saint Paul Escola de Negócios, cujo primeiro módulo trata diretamente de pensamento filosófico para a alta liderança, partindo da tensão entre modernidade e pós-modernidade para discutir como diferentes visões de mundo moldam a forma como um líder decide.
O paradoxo de recorrer ao passado para liderar o futuro
Há uma ironia evidente em executivos que lidam com inteligência artificial, volatilidade geopolítica e ciclos de mercado cada vez mais curtos recorrerem a textos escritos num mundo sem tecnologia, sem trimestre fiscal e sem internet.
Mas o problema central que Marco Aurélio tentava resolver ao escrever suas anotações pessoais, como manter clareza e coerência à frente de um cargo de poder cercado de pressão, não é tão diferente do que qualquer sala de conselho discute hoje.
A ferramenta mudou de forma, não de função: antes eram pergaminhos, hoje são programas de formação executiva. O conteúdo, ao que parece, segue precisando da mesma coisa.
Fonte exame
Foto: Mário Tama/Getty Images









