A inteligência artificial já entrou na rotina dos escritórios. O problema é que as empresas ainda não acompanharam essa transformação.
Uma pesquisa global da Thomson Reuters com 1.816 profissionais de 62 países revelou que 74% dos trabalhadores das áreas jurídica, tributária, auditoria, contabilidade, compliance e risco já utilizam IA semanalmente. Ainda assim, 91% acreditam que suas organizações estão longe de explorar todo o potencial da tecnologia.
Para Adrián Fognini, head de Mercados Internacionais da Thomson Reuters, a diferença entre os profissionais e as empresas não está mais na adoção, mas na capacidade de transformar a tecnologia em uma nova forma de trabalhar.
“A adoção não é o problema. O problema é a execução. Usar IA é uma coisa. Redesenhar o trabalho em torno dela é outra. É nisso que valor, talento e clientes são conquistados ou perdidos”, afirma.
Segundo ele, o gargalo raramente é técnico.
“As organizações que tratam a IA como uma instalação de tecnologia patinam. As que tratam como redesenho de negócio avançam, repensando papéis, fluxos de trabalho e a forma como o desempenho é medido”, diz.
O novo benefício corporativo
Se, há alguns anos, salário, plano de saúde e trabalho híbrido eram fatores decisivos para escolher uma empresa, agora o acesso à inteligência artificial começa a entrar nessa lista.
De acordo com o levantamento, 62% dos profissionais afirmam que o acesso a ferramentas de IA de nível profissional influencia a decisão de aceitar uma vaga. Entre aqueles que já trabalham com essas soluções, quase um terço recusaria uma oportunidade em uma empresa que não oferecesse esse recurso.
Para Fognini, a tecnologia deixou de ser um benefício e passou a ser uma condição para manter a competitividade.
“Não é uma decisão emocional. É uma decisão de carreira. O profissional sabe que, sem as ferramentas certas, perde competitividade”, afirma.
Essa percepção ajuda a explicar outro dado do estudo: 24% dos profissionais que enxergam uma distância entre o potencial da IA e o que suas empresas realmente entregam consideram mudar de emprego nos próximos dois anos. E 13% pensam em fazer isso em menos de um ano.
Os líderes ainda não perceberam
A pesquisa mostra um desalinhamento entre executivos e funcionários.
Enquanto quase metade dos líderes seniores acredita que a pressão por talentos relacionada à IA só se tornará relevante daqui a três anos, os sinais já aparecem agora.
“O mais preocupante é que decisões estratégicas estão sendo tomadas com base em um cenário que já não existe”, diz Fognini. “Os riscos não estão no horizonte. Eles já chegaram.”
Contrariando a percepção de que a Geração Z lidera essa transformação, o maior risco de perda está justamente entre os profissionais de meio de carreira (aqueles que sustentam a operação diária das empresas e mantêm o relacionamento com clientes).
O profissional mais valioso dos próximos anos
Apesar da corrida por ferramentas e automação, a pesquisa aponta que a habilidade mais importante continuará sendo humana.
“O profissional mais valorizado daqui a cinco anos não será o que usa mais IA, mas o que aplica melhor julgamento sobre o que a IA entrega”, afirma Fognini.
Na prática, tarefas como pesquisa, organização de informações e elaboração inicial de documentos tendem a ser assumidas pela inteligência artificial. Já a tomada de decisão, o relacionamento com clientes e a responsabilidade sobre os resultados continuam sendo atributos humanos.
“O talento continuará sendo o diferencial definidor. A IA é um multiplicador de força, mas julgamento, relacionamento com clientes e accountability seguem sendo humanos”, diz.
Para ele, existe uma janela de oportunidade sendo aberta agora, e ela não deve permanecer por muito tempo.
“Os profissionais que vão prosperar são aqueles que investirem em proficiência em IA desde já. O gap entre quem investiu e quem não investiu será muito difícil de fechar”, afirma.
Fonte Exame
Foto: Imagem gerada por IA/Divulgação








