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A autora que venceu o Pulitzer com quadrinho sobre a fuga de sua família da China comunista

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Em mais de um século de história, o Pulitzer, tradicional premiação americana de excelência em jornalismo, literatura e música, contemplou apenas dois autores de quadrinhos. Em 1992, Art Spiegelman foi o primeiro a romper a barreira do preconceito com o formato ao ser agraciado pela monumental graphic novel Maus, na qual reconstitui a via-crúcis de seus pais em campos de concentração nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. No ano passado, a americana de origem chinesa Tessa Hulls repetiu o feito com Meus Fantasmas, que o selo Quadrinhos na Cia. acaba de traduzir e lançar no Brasil.

O subtítulo, Uma Autobiografia em Quadrinhos, dá uma boa pista do que o leitor encontrará. Como Spiegelman, Tessa mergulha no passado de sua família. Por meio de desenhos em preto e branco, a artista de 41 anos revela a realidade de três gerações de mulheres. Antes de se estabelecer nos Estados Unidos, a avó da autora, Sun Yi, e a mãe, Rose, escaparam de Xangai para Hong Kong com a ascensão do Partido Comunista Chinês, em 1949. Sun Yi era jornalista e chegou a publicar um livro de memórias sobre o período: o peso do trauma, porém, cobrou seu preço com um colapso mental grave e irreversível. O fardo de cuidar dela recaiu sobre Rose, sua única filha, instaurando um ciclo de dor e codependência do qual a neta optou por fugir por muito tempo.

O ponto de virada ocorreu quando Tessa decidiu investigar melhor a fratura familiar. A criação da graphic novel foi a espinha dorsal de sua reconciliação com a mãe. “Sabia que parte do nosso desentendimento era porque havia uma história que eu não conhecia”, disse ela a VEJA. “Tivemos brigas exaustivas. Mas havia razões maiores do que nós para o fato de nossa relação ter vivido sempre no prejuízo.” O escrutínio do passado exigiu quase dez anos de trabalho, com vasta pesquisa histórica e viagens à China para visitar familiares e vivenciar as próprias raízes. Quando a obra finalmente ganhou os holofotes, Rose já havia sido diagnosticada com Alzheimer em estágio avançado. “Desta vez, fui eu que assumi o papel (de cuidadora), e agora estamos conseguindo encontrar alegria em meio a algo que é muito, muito triste”, disse a quadrinista. “O impacto do livro em nosso relacionamento foi um sucesso, mesmo sem ela ter conseguido lê-lo.”

Ao amarrar as complexidades políticas do século XX aos escombros afetivos de sua ancestralidade, Tessa transformou Meus Fantasmas em uma obra com um valor muito especial: afinal, encarar a própria história é um caminho genuíno para acertar as contas com o passado e, quem sabe, conquistar a paz.

Foto: Cortesia Tessa Hulls; Quadrinhos na Cia./.

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