Durante um período importante dos anos 2000, o Brasil produziu uma sensação rara de aproximação social. Entre 2004 e 2008, a classe C passou de 42,85% para 51,89% da população, segundo a FGV Social, enquanto a renda per capita cresceu, em média, 5% ao ano entre 2003 e 2008 e 6,5% ao ano no período posterior a abril de 2004.
O dado econômico importava, claro, mas o dado político era ainda maior: pela primeira vez em muito tempo, milhões de brasileiros passaram a acreditar que o padrão de vida dos de cima não era apenas visível, era alcançável.
É por isso que a fotografia daquele período continua tão forte no imaginário nacional. A FGV (Fundação Getúlio Vargas) descreveu o ciclo como um “boom na classe C” e associou esse movimento a casa, carro, computador, crédito e carteira de trabalho em níveis recordes.
Não era só consumo; era inclusão social mediada pelo consumo, com todos os limites que isso carrega, mas também com uma consequência objetiva: quem estava embaixo começou a frequentar símbolos que, até então, pertenciam à gramática cotidiana da elite e da classe média mais consolidada.
Essa diferença não era apenas aspiracional. Entre abril de 2004 e abril de 2008, a miséria caiu de 30,45% para 18,39%, uma redução de 39%, e o próprio estudo da FGV sustenta que, desde 2004, o avanço da renda do trabalho rivalizava com as transferências de renda na melhora distributiva.
Em paralelo, a formalização ganhava corpo: no primeiro semestre de 2008, as principais metrópoles concentravam 387 mil vagas novas de trabalho. Quando emprego, renda e crédito começam a andar juntos, o consumo deixa de ser apenas gasto e começa a se tornar linguagem de pertencimento.
O BNDES registrou que o Brasil já realizava mais de 50 milhões de viagens por ano e que esse mercado cresceu 10% ao ano entre 2003 e 2008, impulsionado pela melhora econômica e pela entrada de passageiros das classes B e C.
No mesmo intervalo, o preço médio por quilômetro voado caiu 48%, e esse número ajuda a entender por que voar se transformou em mais do que deslocamento: era a prova material de que a distância entre classes podia, ao menos por algum tempo, ser encurtada.
Isso vale para o turismo como imaginário de ascensão.
Em 2011, o Ministério do Turismo tratava a nova classe C, estimada em 92 milhões de pessoas, como o motor do setor, em um contexto em que o país acumulava mais de 16 milhões de empregos gerados entre 2003 e maio de 2011, desemprego em queda de 12% em 2002 para pouco mais de 6%, e um salto de 26 milhões para 31 milhões de passageiros domésticos apenas na comparação entre os cinco primeiros meses de 2010 e 2011.
O que estava em jogo ali não era só viajar; era participar de práticas que, antes, serviam justamente para marcar a separação entre quem podia e quem não podia. Até viajar para a Disney, no famoso “pacote CVC”, que era o sonho das classes baixas do país, encostava no andar de cima do Brasil.
Até a tecnologia tinha outra função social.
Na PNAD 2003, o IBGE mostrou que os computadores estavam em 7,7 milhões de domicílios, dos quais 5,6 milhões já tinham acesso à internet. Ter computador naquele momento não era equivalente a ter um eletroeletrônico qualquer; era um anúncio doméstico de modernização, um sinal de entrada em um Brasil mais formal, mais conectado e, de alguma maneira, mais parecido com o país que a publicidade mostrava.
O ensino, sempre patrimônio das elites econômicas e culturais, começava a chegar nos filhos da classe trabalhadora. E assim, o Brasil “de baixo”, começou a cruzar com o Brasil “de cima”.
O problema é que esse tipo de inclusão pelo consumo foi se esgarçando, e o que restou dela hoje é quase uma memória social.
Quando o Instituto Locomotiva e a QuestionPro perguntam, no fim de 2024, o que os brasileiros desejam comprar em 2025, aparecem 63% querendo celular novo, 60% móveis, 59% eletrodomésticos, 54% eletroportáteis, 50% carro e 46% viagem de avião.
O ponto decisivo está menos na lista do que no contraste: os objetos do sonho continuam ali, mas a infraestrutura material que um dia tornou esses objetos mais próximos já não aparece com a mesma consistência.
A tese central talvez esteja exatamente aí. O Brasil não deixou de sonhar pelo consumo; o Brasil voltou a ser desincluído pelo consumo. O que nos anos 2000 funcionou como mecanismo imperfeito, porém real, de integração social, hoje reaparece como vitrine distante, inclusive para parcelas da classe média que também perderam capacidade de transformar desejo em acesso.
O segundo carro virou a parcela de um carro popular, o restaurante, luxo de um pequeno punhado de vezes no mês. A viagem? A cada três anos. E nas classes populares? Virou história de passado.
Os números recentes ajudam a enxergar essa quebra com mais nitidez.
Segundo pesquisa da MindMiners divulgada em 2025, 60% dos brasileiros vivem com até 3 salários mínimos, 27% têm renda variável sem estabilidade mensal, 22% relatam alta instabilidade e 94% sentem o aumento de preços, sobretudo em alimentos (87%), saúde (56%) e transporte (41%).
Na mesma sondagem, 63% afirmam ter adiado ou repensado ao menos um desejo, incluindo 23% reforma da casa, 22% troca do celular e 19% viagem. Isso muda completamente a experiência subjetiva do consumo: o sonho permanece vivo, mas volta a ser atravessado pela sensação de impossibilidade.
O ponto não é apenas a inflação cheia.
Em 2025, o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Final) fechou em 4,26%, abaixo de 2024 (4,83%) e dentro do teto da meta, mas o alívio estatístico não significou alívio na vida concreta. O grupo habitação avançou 6,79%, enquanto a energia elétrica residencial subiu 12,31% no ano; saúde e cuidados pessoais teve alta de 5,59% e despesas pessoais, de 5,87%.
Em termos políticos, isso ajuda a explicar por que uma melhora do agregado nem sempre se converte em sensação de melhora: o cotidiano pode continuar caro mesmo quando o índice geral parece sob controle. No painel de controle, a economia parece em ordem e o governo parece se perguntar o porquê de tanta insatisfação. No dia a dia, o Brasil é esmagado pela rotina dos gastos cotidianos e vê seus sonhos se tornando fantasia.
Mais do que isso, a pressão reapareceu com força já no início de 2026. Em março, o IPCA foi a 0,88%, puxado por transportes (1,64%) e alimentação (1,56%), grupos que responderam por 76% da inflação do mês.
No detalhe, a gasolina subiu 4,59%, a passagem aérea avançou 6,08%, o diesel teve alta de 13,90%, o leite longa vida subiu 11,74% e o tomate, 20,31%. Quando comida, transporte e mobilidade voltam a apertar ao mesmo tempo, o problema já não é só macroeconômico: é imaginário.
A pesquisa do DIEESE/Conab talvez seja a que melhor traduz esse mal-estar para a linguagem do cotidiano. Em março de 2026, o custo da cesta básica subiu nas 27 capitais pesquisadas; em São Paulo, chegou a R$ 883,94, e no Rio de Janeiro, a R$ 867,97.
Com base nesse patamar, o DIEESE estimou que o salário mínimo necessário para uma família de quatro pessoas deveria ter sido de R$ 7.425,99, ou 4,58 vezes o mínimo vigente de R$ 1.621,00. Em média, o trabalhador precisou comprometer 48,12% da renda líquida apenas com os itens alimentícios básicos e trabalhar 97 horas e 55 minutos para comprar a cesta.
É nesse ponto que a imagem da picanha volta a fazer sentido político. A promessa de voltar a comer melhor, viajar melhor e viver melhor não desapareceu do imaginário popular; ela ficou mais exposta à frustração diária.
É por isso que talvez o desafio econômico do governo seja, no fundo, um desafio de sonho. Não basta mostrar que o IPCA anual de 2025 ficou em 4,26% ou que alguns itens desaceleraram em relação a 2024.
Se a cesta sobe nas 27 capitais, se a carne avança em 23, se a passagem aérea sobe 6% em um único mês e se 63% dos brasileiros já estão adiando desejos relevantes, o que se instala não é só aperto orçamentário: é uma percepção de rebaixamento de horizonte.
Nos anos 2000, a política podia se apoiar na ideia de ascensão visível: mais emprego, mais renda, mais crédito, mais aeroporto, mais bens duráveis, mais formalização.
Hoje, o país parece preso a uma situação mais ingrata: os objetos do sonho continuam reconhecíveis, inclusive, o aprofundamento tecnológico criou mais itens de desejo, mas a travessia até eles voltou a ficar longa demais. O pacote para fora, a viagem parcelada, o carro, a reforma, até a carne de melhor qualidade voltam a ser percebidos menos como próximos e mais como exceção.
Esse talvez seja o ponto mais sensível para 2026. A desaprovação de um governo nem sempre nasce apenas de variáveis econômicas abstratas; muitas vezes ela nasce do colapso entre promessa e horizonte.
O Brasil que um dia incluiu politicamente parte de sua população por meio do consumo agora convive com a impressão de que esse canal emperrou de novo. Pior: de que o sonho virou ilusão. E, quando isso acontece, o problema deixa de ser apenas renda. Vira memória, comparação e expectativa frustrada.
Dado corrente melhora ou piora em ciclos; sonho social, quando se rompe, vira fantasma.
E o fantasma aqui tem números muito concretos: 50% ainda querem carro, 46% ainda querem voar, 63% ainda querem trocar de celular, mas 63% também já adiaram alguma vontade importante. O problema político, portanto, não é que o brasileiro tenha desistido da inclusão pelo consumo.
O problema é que ele continua desejando exatamente aquilo que já experimentou como possível, e hoje volta a encontrar, diante de si, o gosto amargo da distância. Em tempos de internet, o brasileiro vive de “sabor sonho”.
Por Revista Plano B
Fonte CNN Brasil
Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil









