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O processo criativo de Jim Jarmusch, o diretor descolado de Hollywood

Jim Jarmusch tinha 15 anos quando viu as primeiras mechas brancas que viriam...

Jim Jarmusch tinha 15 anos quando viu as primeiras mechas brancas que viriam a apagar de forma precoce o castanho de seu cabelo. Na época, já era uma ovelha cinza na escola e arquitetava sua fuga da pacata Akron, no interior do Ohio, Meio-­Oeste americano. Aos 20, em 1973, foi estudar em Nova York, e tudo indicava que ele se encaixaria como uma luva entre os universitários descolados da metrópole. Não foi bem assim. Jarmusch pulou de curso em curso antes de se formar em cinema pela Universidade de Nova York. Ficou, contudo, sem diploma: seu filme-tese foi considerado insatisfatório pela instituição. Hoje, aos 73, o cineasta de vasta cabeleira grisalha continua fugindo de rótulos e padrões, como atesta seu novo filme, Pai Mãe Irmã Irmão (Father Mother Sister Brother, Estados Unidos, 2025), que chega aos cinemas na quinta-feira 9.

Vencedora do Leão de Ouro, principal honraria do Festival de Veneza, a produção é dividida em três histórias sobre o convívio familiar em sua forma mais mundana. A primeira, estrelada por Adam Driver, Mayim Bialik e Tom Waits, segue dois filhos certinhos que visitam o pai desleixado e manipulador. No segundo trecho, Vicky Krieps é uma mulher punk que reencontra a irmã frígida (Cate Blanchett) e a mãe rica (Charlotte Rampling). No terceiro, dois irmãos, vividos por Luka Sabbat e Indya Moore, esvaziam o apartamento dos pais mortos. Se as sinopses parecem carentes de conflito, é porque de fato o são. “Meus filmes são construídos nos intervalos, à margem do que é esperado da explosão dramática”, disse o diretor em entrevista a VEJA.

A escolha narrativa peculiar, aliada a personagens um tanto apáticos e melancólicos, flerta com o fiasco, mas costuma funcionar sob a condução de Jarmusch. Caso do surpreendente Ghost Dog: Matador Implacável (1999), sobre um assassino de aluguel que se vê como um samurai zen, ou do ótimo Amantes Eternos (2013), em que vampiros ficam entediados com a imortalidade. A ousadia cobra seu preço: sua filmografia diversa tem pontos baixos, a exemplo da tosca comédia de zumbis Os Mortos Não Morrem (2019). Mesmo chancelado pelo júri em Veneza, Pai Mãe Irmã Irmão também não é para todo tipo de público. As três tramas revelam detalhes incômodos das relações familiares, em um ritmo lento e repleto de subtextos, evidenciando temas como a manipulação emocional através do dinheiro e as mentiras contadas entre pais e filhos.

No processo criativo, o diretor é tão rebelde quanto sua cabeleira grisalha. “Sou intuitivo. Às vezes o melhor plano é não seguir nenhum plano”, afirma ele, que diz não ter inspirações concretas e pessoais para roteiros. O jeito desapegado condiz com seu passado de músico na boate CBGB, um dos berços do punk em Nova York, e com o movimento de cinema indie de baixíssimo orçamento, batizado de No Wave (Onda Nenhuma), do qual se tornou símbolo. O estilo diferentão do diretor, porém, virou atrativo para celebridades: Bill Murray, Tilda Swinton, Iggy Pop e Selena Gomez são alguns dos que já trabalharam em seus filmes. É inegável: ser um estranho no ninho tem lá seu charme.

Foto: @jim.jarmusch/Instagram

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