Nascida em Hinterbrühl, uma pequena cidade austríaca de cerca de 5 mil habitantes nos arredores de Viena, Sarita Vollnhofer cresceu em um ambiente marcado por educação pública de qualidade, disciplina e forte incentivo ao aprendizado de idiomas. Foi ali que ela se formou em Administração e iniciou sua trajetória profissional — que, anos depois, se tornaria internacional.
Além do alemão, língua oficial do país, Sarita aprendeu inglês, francês e espanhol ainda na escola. O interesse por outras culturas a levou, durante a graduação, a buscar uma experiência fora da Europa.
“Eu queria muito estudar em um país de língua inglesa e acabei escolhendo um lugar completamente diferente do meu: a África do Sul”, conta.
A vivência no continente africano foi transformadora. O contato com realidades mais precárias nas áreas de saúde e educação despertou nela um senso mais profundo de propósito. “Vi uma desigualdade social muito maior do que aquela que eu conhecia. Isso me estimulou a entender melhor o mundo e a pensar em como contribuir com a sociedade”, afirma.
A partir dali, a carreira ganhou contornos globais. Sarita fez mestrado em Relações Internacionais e Saúde Pública na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, trabalhou na ONU, em Nova York, passou pela Nicarágua — e, por fim, chegou ao Brasil.
A mudança definitiva teve também um motivo pessoal. “Conheci um brasileiro quando estudava nos EUA. Decidimos nos casar e construir nossa família no Brasil”, diz.
Ela brinca que o destino já estava traçado, a começar pelo nome. “Sarita nem é um nome comum na Áustria. Acho que minha mãe, de alguma forma, já imaginava que eu viveria em um país latino”, diz Vollnhofer.
Apesar da fluência em quatro idiomas, aprender português foi indispensável para dar continuidade à carreira no Brasil. Ainda assim, o maior desafio não foi a língua, mas a adaptação cultural.
“O idioma você estuda. A cultura, você vive — e isso exige abertura”, afirma.
Há cerca de dez anos no país, Sarita hoje ocupa o cargo de CHRO da healthtech Alice. Com a bagagem de quem já trabalhou em diferentes continentes, ela relembra contrastes marcantes entre o ambiente corporativo austríaco e o brasileiro.
Como é trabalhar na Áustria
Pontualidade é regra absoluta: chegar cinco minutos antes é o esperado; chegar “em cima da hora” pode soar como atraso.
Reuniões são curtas e objetivas: conversas longas só acontecem se forem realmente necessárias.
Comunicação direta e formal: pouco espaço para rodeios ou mensagens nas entrelinhas.
Vida pessoal fica fora do escritório: compartilhar detalhes íntimos pode ser visto como excesso.
Almoço rápido e funcional: comer na própria mesa ou pegar algo simples no mercado é o padrão.
Como é trabalhar no Brasil
Flexibilidade no tempo: o famoso “cinco minutinhos” pode se alongar — e ninguém se surpreende.
Reuniões mais sociais: café, pão de queijo e conversas informais fazem parte do ritual.
Comunicação calorosa e informal: falar da vida pessoal ajuda a criar vínculos.
Encontros mais longos: o “quebra-gelo” é quase obrigatório antes de entrar na pauta.
Hábitos curiosos: escovar os dentes durante o expediente é comum — algo impensável na Áustria.
Para Sarita, essa informalidade foi decisiva para sua integração. “A cultura aberta dos brasileiros me ajudou muito a criar laços, entender melhor o país e fazer amigos”, afirma.
A quem sonha com uma carreira internacional, o conselho é claro: idioma é essencial, mas não basta.
“Aprender a língua local é fundamental para o trabalho e para a adaptação cultural. No começo, ter amigos da sua nacionalidade traz segurança, mas fazer amizades com pessoas do país é o que realmente acelera a integração”, diz.
Por fim, ela reforça que a experiência exige mais do que currículo.
“É preciso ter mente e coração abertos. No início pode ser difícil, mas são justamente as diferenças que nos tornam profissionais e pessoas mais completas.”
Por Revista Plano B
Fonte Exame
Foto: Alice/Divulgação







